Você sempre atualizado

Quem responde pelas tragédias anunciadas?

Na manhã seguinte ao vendaval que atingiu o Rio de Janeiro, a cena parecia repetida. As notícias mostravam árvores caídas, telhados destruídos e bairros inteiros sem luz. Dois moradores de Santa Teresa perderam a vida com a queda de um muro. A cobertura jornalística, como de costume, focou na força da natureza.

Os ventos passaram de cem quilômetros por hora. Os especialistas explicaram o encontro de uma frente fria com o ar quente e a influência do El Niño. Entender por que o fenômeno foi tão intenso é fundamental, sem dúvida. Mas existe um ponto ainda mais crucial.

A crise climática aprofunda desigualdades históricas. Ela atinge com muito mais força as populações negras, periféricas e mais vulneráveis. Sabemos quais encostas são perigosas e quais bairros sempre alagam. Conhecemos os mapas de risco e as políticas que poderiam evitar tragédias.

O conhecimento técnico já existe. Não é mais uma questão de falta de informação. O grande obstáculo agora é outro. Faltam decisão política e ação concreta para transformar esse saber em proteção real para as pessoas.

O caso de Petrópolis é um exemplo claro

A chuva forte, por si só, não explica a dimensão do desastre. O município tinha um plano de redução de riscos desde 2017. Esse documento já apontava dezenas de áreas com perigo alto ou muito alto para deslizamentos.

Depois das chuvas de 2022, novos estudos reforçaram os mesmos alertas. Os mapas e diagnósticos estavam prontos muito antes da tragédia se concretizar. A ciência e o planejamento avisaram. As mortes aconteceram mesmo assim.

A tragédia deixou marcas que vão muito além da destruição material. Uma pesquisa feita com moradores em 2025 mostrou um sofrimento que persiste. Muitos relatam medo constante quando o céu escurece.

Eles falam de prejuízos econômicos, dificuldades para reconstruir suas casas e uma sensação profunda de abandono. Para essas pessoas, o desastre nunca terminou. A omissão do poder público prolonga a dor e a insegurança.

Uma pergunta que precisa ser feita

É comum que o debate público mude de rumo quando chegamos no tema da responsabilidade. Falamos sobre a crise climática, a adaptação das cidades e a resiliência. Todos esses pontos são importantes, é claro.

Mas quando o assunto vira “quem falhou?”, a conversa perde força. Evitamos apontar quem responde por obras não feitas e alertas ignorados. Se os estudos existem há anos, por que a ação é sempre mais lenta que a tragédia?

O que aconteceu no Rio e em Petrópolis não é uma exceção. Recife enfrenta deslizamentos recorrentes em áreas vulneráveis há décadas. O Rio Grande do Sul viveu sua maior catástrofe climática em 2024.

Cidades de Minas Gerais, como Ubá e Juiz de Fora, sofrem com enchentes e deslizamentos todos os anos. Um vendaval recente em São Paulo também causou uma morte. Os fenômenos e as paisagens mudam, mas o padrão se repete.

Em boa parte desses lugares, os riscos eram amplamente conhecidos. As mortes e os desabrigados de hoje viviam em áreas já mapeadas como perigosas. O desastre não começa com a chuva. Ele começa muito antes.

A mudança necessária na comunicação

Os meios de comunicação têm um papel vital. Eles alertam a população sobre riscos imediatos e dão orientações em situações de emergência. Isso salva vidas e é indispensável. No entanto, a cobertura muitas vezes para por aí.

A narrativa tende a espetacularizar a força da natureza. Ela dedica pouco espaço para uma pergunta simples: por que esse bairro continua vulnerável depois de tantos avisos? Quando as águas baixam, esse questionamento some.

As reportagens não investigam quais obras ficaram no papel. Não mostram quais planos de adaptação estão sem verba. Esquecem de cobrar por que decisões foram adiadas. Ao focar apenas no fenômeno excepcional, naturalizamos o que é político.

A crise climática não tira a responsabilidade do poder público. Pelo contrário, ela a aumenta. Sem cobrança e responsabilização, a adaptação climática será só mais um documento. Vai gerar novos mapas, planos e diagnósticos que ninguém aplica.

O próximo evento extremo vai chegar. A ciência é clara sobre isso. A questão que fica no ar é outra. Até quando vamos tratar como inevitáveis tragédias que já estavam anunciadas?

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.