Enquanto outras confederações continentais já levantaram a voz contra um novo projeto comercial da Fifa, a Conmebol, que comanda o futebol sul-americano, decidiu ficar em silêncio. A entidade não apoiou publicamente a proposta, mas também não a rejeitou como fizeram seus pares da Europa, Ásia e América do Norte. Essa postura cautelosa coloca a América do Sul em um cenário à parte no tabuleiro político do futebol mundial.
O projeto em discussão se chama Fifa Forward Enterprise. A ideia é criar uma empresa separada para administrar os direitos comerciais dos principais torneios da entidade. A Fifa manteria o controle, mas poderia vender uma parte minoritária para investidores privados. O objetivo declarado é aumentar o dinheiro disponível para repassar às federações e financiar o desenvolvimento do esporte.
Enquanto isso, a reação internacional foi rápida e dura. A Uefa rejeitou a proposta por unanimidade e ameaçou boicotar competições da Fifa se ela seguir adiante. As confederações da Ásia e da América do Norte e Central também se manifestaram contra, citando preocupações com a governança e a falta de transparência no processo. O clima é de desconfiança em relação aos planos do presidente da Fifa, Gianni Infantino.
Por que a Conmebol está quieta?
A postura de espera da Conmebol tem motivos políticos claros. Seu presidente, Alejandro Domínguez, mantém uma relação próxima com Gianni Infantino desde que o suíço-italiano assumiu a Fifa. Domínguez já demonstrou apoio à sua liderança no passado. Um alinhamento automático com as confederações rivais poderia abalar essa aliança estratégica, que trouxe benefícios à região.
Há ainda um elemento concreto e muito importante em jogo: a Copa do Mundo de 2030. Argentina, Paraguai e Uruguai foram confirmados como sedes da abertura do torneio, que celebrará seu centenário. Esse acordo histórico com a Fifa cria um vínculo forte e pode fazer a Conmebol pensar duas vezes antes de entrar em um conflito aberto com a cúpula do futebol mundial.
Internamente, a entidade deve estar avaliando os prós e contras. O projeto promete mais recursos, o que sempre interessa. No entanto, abrir mão de parte do controle comercial do esporte é um risco. A Conmebol parece estar analisando o jogo de poder global antes de definir seu lance. A CBF, por exemplo, também não se posicionou oficialmente, seguindo a linha de sua confederação continental.
O que está realmente em disputa?
Por trás dos termos comerciais, a briga é sobre controle e poder. A Fifa argumenta que a nova empresa é necessária para injetar bilhões no futebol. Infantino diz que é uma oportunidade, não uma obrigação. A entidade garante que as decisões esportivas e regulatórias continuariam totalmente sob seu comando, não dos investidores.
As confederações contrárias, no entanto, veem o plano como uma ameaça à sua autonomia. Elas temem que a venda de uma fatia do negócio, mesmo que minoritária, dê a grupos privados influência excessiva sobre o calendário, os formatos das competições e o futuro do esporte. Para elas, não se trata apenas de dinheiro, mas de quem dita as regras do jogo.
Enquanto Europa, Ásia e outras regiões formam uma frente de oposição, a América do Sul se mantém como uma peça crucial e indecisa. A definição da Conmebol, quando vier, pode inclinar a balança a favor ou contra o projeto de Infantino. O silêncio atual, portanto, não é neutro. É uma estratégia que mantém a porta aberta para negociações e coloca a entidade em uma posição de relevância nos bastidores dessa decisão global.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.