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No Rio, bairros ricos tiveram luz em minutos; periferia passa 70 horas no escuro

A diferença foi gritante. Em Copacabana, a luz voltou em apenas quinze minutos após o vendaval de quarta-feira. Enquanto isso, em Vigário Geral, na divisa com a Baixada, famílias seguiam no escuro até a tarde de sexta. Mais de setenta horas de espera. Esse contraste não é apenas uma questão de sorte ou de localização geográfica. Ele revela uma desigualdade profunda no acesso a serviços essenciais, que se agrava cada vez mais durante eventos climáticos extremos.

A revolta com a demora tomou as ruas. Em bairros da Zona Oeste, como Taquara e Sepetiba, moradores queimaram lixo e interditaram vias. Em Guaratiba, barricadas em chamas bloquearam a Estrada do Magarça. A Polícia Militar precisou intervir para dispersar os protestos e liberar o tráfego. A situação se repetiu em Campo Grande, onde motociclistas promoveram buzinaços enquanto outros incendiavam barricadas.

Os protestos se espalharam pela Baixada Fluminense. Em Duque de Caxias, moradores atearam fogo a objetos na Avenida Kennedy e bloquearam a Estrada do Rio do Ouro em Xerém. Em Nova Iguaçu, os moradores do Jardim Corumbá foram às ruas cobrar soluções. No Cabuçu, os protestos chegaram ao terceiro dia consecutivo. Em Queimados, o bairro São Jorge também se manifestou. Apesar das concessionárias informarem avanços, mais de cem mil clientes ainda estavam sem energia no fim da semana.

Os impactos desiguais do clima

O vendaval causou muito mais do que um blecaute. Ele derrubou mais de duzentas e sessenta árvores e paralisou trens, metrô e barcas. No total, mais de um milhão de imóveis ficaram sem energia nas horas seguintes à tempestade. Mas os transtornos não foram iguais para todos. O tempo de resposta para restabelecer serviços básicos varia drasticamente de um bairro para outro.

Essa diferença ilumina uma discussão urgente. Diante do avanço de eventos climáticos extremos, quem sofre os maiores impactos? Tempestades, enchentes e ondas de calor atingem a todos, mas suas consequências são distribuídas de forma profundamente desigual. As populações mais vulneráveis são as que enfrentam os transtornos por mais tempo.

Os dados do Censo de 2022 são claros. No Brasil, a grande maioria das moradias precárias é chefiada por pessoas negras, de baixa renda e de comunidades periféricas. Essa parcela da população sofre com a menor oferta de infraestrutura urbana, serviços públicos mais frágeis e maior exposição a áreas de risco. Quando uma tempestade forte chega, são essas famílias que ficam mais tempo no escuro, literal e figurativamente.

A infraestrutura como determinante

A rapidez do reparo em um bairro e a lentidão em outro não é um acaso. Ela está diretamente ligada ao histórico de investimentos em infraestrutura de cada região. Redes elétricas mais modernas e bem mantidas tendem a ser restabelecidas com maior agilidade. Em áreas com infraestrutura mais antiga e sobrecarregada, os danos são maiores e os reparos, mais complexos.

Além da rede elétrica em si, o acesso físico das equipes técnicas influencia muito. Ruas estreitas, ausência de planejamento urbano e a própria localização em encostas podem dificultar ou até impedir a chegada dos caminhões e dos profissionais. Isso adia a solução do problema por dias, enquanto bairros com ruas largas e acessíveis são atendidos primeiro.

O resultado prático é um prolongamento do sofrimento. Sem luz, alimentos estragam na geladeira. Aparelhos médicos essenciais deixam de funcionar. A segurança fica comprometida. O trabalho e os estudos, que dependem da internet, são interrompidos. Enquanto para alguns a tempestade foi um inconveniente de quinze minutos, para outros se transformou em uma crise que se arrasta por dias, agravando ainda mais as condições de vida.

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