O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo decidiu investigar o sistema de bilhetagem eletrônica que usamos no transporte público. A apuração vai focar no cartão TOP, presente em metrôs, trens e ônibus metropolitanos. O objetivo é verificar se há irregularidades e prejuízos aos cofres estaduais.
A investigação foi provocada por uma denúncia da Bancada Feminista do PSOL na Assembleia Legislativa. A codeputada Paula Nunes questiona mudanças implementadas desde 2020. Ela cita a substituição de bilheterias físicas por QR Code e autoatendimento.
A parlamentar também levanta suspeitas sobre a influência de grupos econômicos do setor de ônibus. Esses grupos atuariam nas duas pontas do sistema sem licitação. Eles estariam presentes tanto na associação que define as regras quanto na empresa que opera o cartão.
O modelo em xeque
Na prática, a Abasp, que reúne empresas de ônibus e as estatais de transporte, contratou diretamente a Autopass. Acontece que os acionistas da Autopass são, em grande parte, os próprios fundadores da associação. Isso cria uma situação de possível conflito de interesses.
A Autopass defende a legalidade do modelo em nota. A empresa afirma que sua atuação é restrita aos serviços tecnológicos. Ela diz não realizar a arrecadação nem a gestão financeira dos recursos, responsabilidade da Abasp.
Enquanto isso, os números mostram um contraste claro. A Autopass faturou mais de 220 milhões de reais em 2025 com o serviço. No mesmo período, Metrô e CPTM moviam ações para tentar reaver 119 milhões retidos por empresas de ônibus.
Conflitos e consequências
A investigação aponta que a sobreposição de cargos é um ponto crítico. Membros do conselho da Abasp tinham ligações societárias com a Autopass na data do contrato. Famílias do setor de ônibus são fiadoras de dívidas da operadora e donas de concessionárias.
Para o especialista em mobilidade Rafael Calabria, Metrô e CPTM foram as principais vítimas da mudança. Com o fim do bilhete unitário de papel, as estatais perderam o controle direto sobre sua arrecadação. Elas foram inseridas num esquema onde têm voz minoritária.
Calabria avalia que o Estado perdeu capacidade de planejar o transporte. Ele entregou a chave do cofre para os próprios operadores privados. O novo Marco Legal do Transporte Coletivo, de 2026, vai na direção oposta ao exigir planejamento público e bilhetagem independente.
Os próximos passos
O recebimento da denúncia pelo Tribunal de Contas é visto como um passo fundamental. A codeputada Paula Nunes espera que a apuração avance e esclareça responsabilidades. O sistema movimenta bilhões de reais e precisa de mais transparência.
A nova investigação foi unificada a processos que já analisavam o período de 2019 a 2022. O governo de São Paulo foi questionado sobre a manutenção do modelo atual. Não houve retorno da Secretaria de Comunicação até o fechamento das informações.
A Abasp, que não dispõe de um contato de assessoria de imprensa, também não atendeu às ligações. A sociedade aguarda os resultados da apuração, que pode redesenhar o controle sobre a bilhetagem no estado.
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