O celular do banqueiro Daniel Vorcaro guardava um detalhe curioso sobre a criação da lei que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. A Polícia Federal encontrou ali as três emendas apresentadas pelo senador Efraim Filho ao projeto de lei. Os arquivos foram enviados ao banqueiro por um interlocutor, descritos como algo "fundamental" para o texto que tramitava no Congresso.
Essa descoberta integra um relatório da PF tornado público pelo ministro do STF André Mendonça. O documento faz parte do inquérito que apura relações entre interesses do Banco Master e a atuação do senador Jaques Wagner. O parlamentar foi alvo de mandados de busca durante a Operação Compliance Zero, em junho.
As emendas haviam sido protocoladas formalmente por Efraim em setembro de 2023. Cerca de um mês depois, um contato identificado como "José Antonio Carbono" enviou os arquivos a Vorcaro. Na mensagem, ele afirmou que as três propostas eram fundamentais para serem aplicadas no projeto de lei em discussão.
A investigação sobre o interesse no projeto
Os diálogos no celular do banqueiro demonstram seu claro interesse no tema. Além de receber as emendas, Vorcaro pediu relatórios sobre a capacidade de geração de ativos ambientais da Fazenda Amazônica. Nas conversas, o empreendimento era tratado como "nosso projeto", indicando um envolvimento direto.
Os investigadores concluíram que tanto Vorcaro quanto seu sócio Augusto Lima tinham atenção no assunto. Eles acompanhavam a regulamentação e a futura comercialização dos créditos de carbono. No aparelho de Augusto, a PF encontrou o parecer legislativo sobre o projeto e uma mensagem de um ex-ministro.
A mensagem classificava a proposta como "outro projeto de nosso interesse", ao que Augusto respondeu com um emoji de aperto de mãos. Esses detalhes mostram como o andamento da lei no Congresso era monitorado de perto por pessoas ligadas a negócios privados no setor ambiental.
As conexões e os limites das provas
É importante notar o que o relatório não mostra. Não há indicação de que o senador Efraim tenha enviado os documentos diretamente a Daniel Vorcaro. Também não existem conversas entre os dois na investigação. Não há prova de que o banqueiro ou seu interlocutor tenham participado da elaboração das emendas.
O achado revela, porém, um fato significativo. Alterações apresentadas por um parlamentar eram acompanhadas e consideradas estratégicas por envolvidos em um projeto privado. O foco da investigação partiu de uma análise das proposições ligadas ao senador Jaques Wagner desde 2019.
O objetivo era identificar iniciativas que pudessem beneficiar o Banco Master ou seus controladores. Na maioria dos casos analisados, porém, a PF não localizou referências nas conversas extraídas dos celulares. O vínculo direto entre a atuação parlamentar e os interesses privados permanece em análise.
O contexto da tramitação do projeto
Jaques Wagner assumiu a relatoria do projeto de lei em novembro de 2022. Ele permaneceu na função por menos de um mês, deixando o posto com o fim da legislatura. Quando as emendas de Efraim foram apresentadas, em setembro de 2023, a relatora da matéria já era a senadora Leila Barros.
O relatório da Polícia Federal não registra qualquer contato direto entre Wagner e Vorcaro sobre esse projeto específico. Também não aponta uma atuação do parlamentar para incorporar as três emendas ao texto final da lei. A investigação segue para entender a rede de interesses em torno do tema.
O caso Master também envolve a família Bolsonaro, investigada por pagamentos do ex-banqueiro. Os recursos foram destinados para a realização de um filme sobre Jair Bolsonaro. A descoberta das emendas no celular de Vorcaro abre uma nova frente para entender como negócios privados monitoram leis no Congresso.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.