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‘Eram profissionais fazendo gambiarra’, diz mãe de vítima de acidente da Voepass

Quase dois anos se passaram desde o acidente aéreo que chocou o Brasil. Para as famílias das 62 vítimas, o luto se mistura com uma longa espera por justiça. Agora, um novo capítulo se inicia com o recente indiciamento de dezesseis pessoas pela Polícia Federal.

O relatório das investigações foi apresentado aos familiares nesta quinta-feira. A conclusão policial aponta uma série de falhas graves que levaram à tragédia. O momento é de alívio cauteloso e de preparação para uma batalha jurídica que promete ser extensa.

“Estamos fechando um ciclo e começamos outro de mais luta”, reflete Fátima Albuquerque, presidente da associação de familiares. Ela perdeu a filha, a médica Arianne Risso, no voo. O indiciamento é um passo formal, mas fundamental, dentro do processo. Ele significa que a polícia reuniu provas consideradas suficientes contra os investigados.

A partir de agora, o Ministério Público Federal analisará todo o inquérito. Caberá aos promotores decidir se apresentam uma denúncia à Justiça. Se aceita, tem início a ação penal propriamente dita. Não há um prazo definido para que essas etapas se concretizem, o que exige paciência.

O advogado das famílias, Thalles Andrade, já adianta que o caminho será longo. A PF conseguiu uma medida cautelar para impedir que os indiciados deixem o país. Porém, pedidos de prisão preventiva foram descartados no momento. A sensação é de esperança vigilante, como descreve Fátima.

O que a investigação da PF revelou

A tragédia não foi causada por um evento isolado ou um simples azar. O relatório da Polícia Federal descreve uma sucessão preocupante de erros. A aeronave ATR 72-500 foi autorizada a decolar mesmo com previsão de formação de gelo na rota.

Esse modelo específico não possui certificação para operar sob tais condições. Pior ainda: já apresentava falhas conhecidas no sistema de degelo. Esses dois fatores, por si só, deveriam ter impedido completamente o voo naquele dia. A decisão de prosseguir foi um risco calculado e fatal.

Os peritos vão além e apontam uma cultura organizacional problemática dentro da empresa. Havia uma prática de omitir registros de problemas técnicos e priorizar a disponibilidade dos aviões. A segurança operacional ficava em segundo plano. Essa postura permitiu que falhas recorrentes se acumulassem.

As responsabilidades individuais e coletivas

Entre os dezesseis indiciados, estão desde o presidente da empresa na época, José Luiz Felício Filho, até diretores, pilotos e despachantes operacionais. A investigação buscou responsabilizar pessoas em diferentes níveis de decisão. A ideia é que a tragédia foi fruto de ações e omissões em várias frentes.

Para a jornalista Adriana Ibba, que perdeu a filha Liz de três anos, o inquérito trouxe materialidade às suspeitas. “Agora é trabalhar para que esses indiciados respondam pelos seus atos”, afirma. A associação de familiares também prepara uma ação coletiva por danos morais.

Eles pretendem processar todas as pessoas e empresas envolvidas, direta ou indiretamente. A lista inclui desde executivos até empresas ligadas à operação e venda das passagens. O objetivo é que a justiça seja feita em todas as esferas, civil e criminal. A expectativa é por um processo robusto e preciso.

A defesa da empresa e o longo caminho pela frente

Em nota, a Voepass afirmou que a segurança sempre foi sua prioridade. A empresa destacou sua trajetória de trinta anos e a experiência da tripulação, que somava milhares de horas de voo. Disse ainda colaborar com as investigações e aguardar os desdobramentos processuais para exercer seu direito de defesa.

As famílias, no entanto, enxergam a situação por outro ângulo. Fátima Albuquerque fala com dor sobre profissionais altamente qualificados fazendo “gambiarra” em uma aeronave. “Todos sabiam que aquela aeronave iria cair. Só não sabiam quem subiria nela”, desabafa. A luta agora segue no campo jurídico.

O caminho até uma possível condenação ainda é incerto e demorado. Para os familiares, cada etapa vencida é um lembrete amargo da perda, mas também um sopro de esperança. Eles esperam que o caso sirva como um marco para toda a aviação civil e outros setores, inibindo práticas que coloquem vidas em risco.

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