O caso de PC Farias parece saído de um filme. Um tesoureiro presidencial, uma fuga de jato, uma morte misteriosa. Essa história real, contada no livro “O Tesoureiro”, ainda parece ficção. O jornalista Xico Sá decidiu revisitá-la três décadas depois. Ele mistura reportagem minuciosa com memórias pessoais e um toque literário. O resultado vai muito além de uma simples reconstituição de fatos. É um mergulho nos bastidores de um Brasil que muitos já esqueceram.
A trama começa com Paulo César Farias, o PC. Ele era o homem forte por trás da campanha de Fernando Collor em 1989. O candidato se vendia como o “caçador de marajás”, um combatente da corrupção. Ironia das grandes, seu principal operador viria a ser o arquiteto de um enorme esquema de desvio de dinheiro público. Esse sistema de corrupção acabou por derrubar o próprio presidente. A queda de Collor, em 1992, foi um terremoto político. E PC Farias estava bem no centro do tremor.
Quando a justiça finalmente decretou sua prisão, ele não ficou para ver. Fugiu do país a bordo de um jatinho particular. A caça internacional começou. Ele se escondeu primeiro em Londres, depois na Tailândia. Foi capturado em Bangkok e voltou ao Brasil algemado em 1993. Cumpriu pena e saiu em liberdade dois anos depois. O capítulo final, porém, foi o mais sombrio. Em junho de 1996, ele e sua namorada, Suzana Marcolino, foram encontrados mortos a tiros. As circunstâncias do crime nunca foram totalmente esclarecidas. O mistério permanece até hoje.
Um repórter obcecado pela história
Xico Sá seguiu essa história desde o início, nos anos 90. Na época, seu texto era puro jornalismo, direto e factual. Agora, ele resolveu recontar tudo com outra perspectiva. Ele incorpora as memórias do repórter que viveu aqueles momentos. O livro ganha assim uma camada pessoal e íntima. O autor aparece não só como narrador, mas também como personagem da própria investigação. Ele revela os perigos e os becos escuros desse tipo de cobertura.
O jornalista descobriu que as melhores fontes não estavam nos gabinetes luxuosos. Estavam nos inferninhos de Maceió e nas mesas de bar de São Paulo. Foi nesse submundo que ele encontrou informações cruciais. Uma de suas principais fontes foi uma garota de programa chamada Brigitte. A moça ganhou até uma viagem para ver um show da Madonna como agradecimento por sua ajuda. Esses detalhes humanos dão vida a uma história que poderia ser apenas um relato burocrático de corrupção.
O trabalho mostra como o jornalismo tradicional tem suas lacunas. Às vezes, a realidade escapa aos manuais de redação. Foi preciso tempo e uma abordagem mais literária para preencher alguns vazios. A memória do repórter guardava segredos que só agora puderam ser contados. A história ganha profundidade com esse olhar que mistura o factual com o vivido na pele.
PC Farias, um personagem de romance
Paulo César Farias era uma figura complexa e cheia de contradições. Ele era um grande leitor, citando desde Nelson Rodrigues até textos em latim. Usava a literatura como ferramenta até em seu depoimento na CPI. “Tirei quase tudo de Bonitinha mas Ordinária”, ele confessou sobre seus argumentos. Esse lado culto contrastava brutalmente com suas ações como gestor de um esquema bilionário.
Para o autor, o maior desafio foi evitar romantizar a canalhice. Ele não queria que o leitor visse PC Farias com um olhar nostálgico ou glamourizado. O objetivo era claro: apresentar um homem que, por trás de suas esquisitices, era um sócio de Collor na pilhagem do erário. A fuga dele foi digna de um roteiro de Hollywood. Ele raspou o bigode característico e contratou especialistas em extração de fugitivos.
O aspecto mais chocante, porém, veio depois. Xico Sá descobriu que parte da Polícia Federal e da Interpol estava comprada pelo esquema. Essa informação só veio à tona muito tempo depois. O próprio PC Farias contou isso ao jornalista poucos dias antes de ser assassinado. Esse detalhe revela a dimensão e o poder da rede de corrupção montada pelo grupo.
O que a história revela sobre o Brasil
A candidatura de Collor já nasceu de uma negociação escusa. PC Farias intermediou um acordo com usineiros de Alagoas sobre impostos estaduais. Esse fato foi omitido pela grande mídia da época, com raras exceções. Havia um projeto de “modernidade” para derrotar a esquerda que não podia ser manchado. Assim, o “caçador de marajás” chegou ao poder com uma mancha de origem.
O livro mostra como a cultura dos anos 90 se misturava com a política. Referências a Chico Science, Raul Seixas e Madonna permeiam a narrativa. Em uma cena surreal, o próprio Chico Science estava no aeroporto quando Xico Sá retornava com PC Farias preso. Ele teria cantarolado “Al Capone”, música que parecia feita para o momento. Esses elementos ajudam a entender a atmosfera da época.
E o que ficou dessa era? Quase tudo, segundo o autor. Os mesmos mecanismos de corrupção e as mesmas alianças espúrias seguem vivas. Ele cita o caso do Banco Master e suas conexões com a família Bolsonaro como exemplo. Esse grupo encontrou terreno fértil para crescer justamente na gestão recente. A sensação é de que o roteiro se repete, apenas com personagens diferentes no palco.
A obra de Xico Sá serve como um alerta contra o esquecimento. A cada geração, os mesmos erros parecem ameaçar se repetir. Conhecer os detalhes dessa história é fundamental. Não como uma simples aula de história, mas como um espelho para o presente. O livro não termina com uma lição de moral, apenas com os fatos. Cabe ao leitor refletir sobre o que foi e sobre o que ainda pode ser.
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