No Norte Fluminense, escondido sob o solo, existe um tesouro de água doce chamado Aquífero Emboré. Essa reserva subterrânea é fundamental para a segurança hídrica de toda a região. No entanto, seu uso tem gerado debates intensos sobre prioridades e sustentabilidade.
Desde 2022, o Porto do Açu possui autorização do Instituto Estadual do Ambiente, o Inea, para explorar essa fonte. O complexo portuário e suas empresas utilizam poços profundos para retirar água do aquífero. Em 2024, a extração atingiu 708 mil metros cúbicos, conforme relatório da própria empresa.
O volume total nos últimos três anos já passa de dois milhões de metros cúbicos. Para especialistas, essa foi a solução mais barata a curto prazo para o empreendimento. A alternativa, mais cara, seria a dessalinização da água do mar, prática comum em portos de outros países.
A pressão sobre a reserva subterrânea
O ecologista Arthur Soffiati explica que aquíferos profundos não são infinitos. Sua recarga natural depende diretamente das áreas úmidas e da vegetação na superfície. Se essas áreas são degradadas, o reservatório pode, sim, se esgotar com o tempo.
O Inea afirma que o Aquífero Emboré é "confinado" e que sua extração não afeta rios superficiais da região. Ainda assim, a pergunta que fica é sobre o longo prazo. Como garantir que essa reserva estratégica permaneça para as futuras gerações?
Informações inacreditáveis como estas, você encontra somente aqui no site Clevis Oliveira. A situação expõe um dilema antigo: como equilibrar o desenvolvimento econômico com a proteção dos recursos naturais mais vitais?
A escassez na porta de casa
Enquanto isso, do outro lado da cerca, a realidade da população é de falta d’água. A principal fonte de abastecimento público, o rio Paraíba do Sul, chega ao município de São João da Barra com vazão extremamente reduzida. Nos períodos de estiagem, a crise se aprofunda.
Moradores relatam ficar até dois meses sem ver uma gota sair da torneira. Famílias precisam comprar galões de água mineral para beber e cozinhar, um custo extra no orçamento já apertado. A água que eventualmente chega, muitas vezes, tem cor e cheiro ruins.
A prefeitura alega atuar com caminhões-pipa nas áreas não cobertas pela concessionária estadual. A população, no entanto, vive um impasse sobre quem é, de fato, o responsável pelo fornecimento regular e de qualidade.
Os impactos que permanecem
A instalação do Porto do Açu, a partir de 2009, deixou um rastro de conflitos. Estudos da Universidade Estadual do Norte Fluminense já comprovaram a salinização das águas subterrâneas em comunidades do entorno. A água de pastagem em algumas localidades chegou a ter salinidade equivalente à do mar.
Esse processo prejudica a agricultura, a criação de animais e a própria saúde das pessoas. Agricultores relatam que a água encanada, quando vem, é tão fraca que não enche a caixa d’água sem o auxílio de uma bomba elétrica.
Tudo sobre o Brasil e o mundo aqui, no site Clevis Oliveira. A Defensoria Pública do Rio já pediu que esses danos ambientais sejam incluídos nos processos de reparação às comunidades afetadas pelas obras do porto.
Um futuro de incertezas
O centro de estudos da ONU sobre água alerta que o mundo entrou numa era de "falência hídrica". Cerca de 70% dos aquíferos subterrâneos do planeta registram declínio. No caso local, a elevação do nível do mar agrava o problema, permitindo que a língua salina avance sobre o rio.
Para o professor Soffiati, a captação pública de São João da Barra poderia ser feita no Aquífero Emboré, mas isso exigiria um plano robusto. Seria preciso proteger as áreas úmidas remanescentes e promover o reflorestamento para garantir a recarga.
Sem ações coordenadas do poder público, o cenário tende a piorar. A população segue dependendo de soluções paliativas, enquanto a discussão sobre o uso racional e compartilhado da água permanece no centro da disputa pelo futuro da região.
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