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Vereador do PL avança carro contra indígenas em protesto em Santarém, no Pará

Uma noite de tensão em Santarém, no oeste do Pará, acabou gerando acusações graves e versões opostas. Indígenas de vários povos do Baixo Tapajós realizavam uma vigília pacífica quando um carro de luxo avançou contra a barreira montada por eles. O motorista era o vereador Malaquias José Mottin, e as imagens do momento causaram revolta nas redes sociais.

Os manifestantes, incluindo famílias com crianças e idosos, fecharam o acesso ao terminal da empresa Cargill na BR-163. Eles protestam contra a dragagem do rio Tapajós e pedem a revogação de um decreto do governo federal. O clima, que era de protesto, mudou completamente com a chegada do veículo do parlamentar.

Lideranças indígenas relatam que o carro foi jogado na direção das pessoas, empurrando pneus e estruturas do bloqueio. Eles afirmam que buscaram diálogo e que a ação do vereador colocou vidas em risco. O conselho que representa catorze povos da região já se manifestou, classificando o episódio como gravíssimo.

A versão do vereador sobre os acontecimentos

Em nota pública divulgada no dia seguinte, Malaquias Mottin deu uma explicação completamente diferente para os fatos. Ele disse que trafegava de carro particular com a esposa, que é cadeirante, quando encontrou a via interditada. Segundo ele, foi reconhecido, cercado por pessoas com pedaços de madeira e agredido.

O parlamentar afirmou que sofreu lesões físicas, inclusive na cabeça. Em meio ao suposto ataque, tentou fazer uma manobra para sair do local, mas foi impedido por manifestantes à frente do carro. Com medo pela própria vida, decidiu forçar a passagem para conseguir escapar dali.

A família do vereador informou que acionou a Polícia Civil e pediu apuração do caso. Em sua nota, Mottin ressaltou que o direito à manifestação é constitucional, mas deve ocorrer sem violência. A história, portanto, tem dois relatos que não combinam em nenhum ponto crucial.

O protesto contra a dragagem do Tapajós

O incidente não foi um fato isolado. Ele aconteceu dentro de uma ocupação do porto da multinacional Cargill, que começou em janeiro. Indígenas de pelo menos catorze povos estão no local para protestar contra um projeto de dragagem do rio Tapajós. O trecho previsto vai de Santarém a Itaituba, somando cerca de duzentos e oitenta quilômetros.

As lideranças afirmam que a obra, orçada em quase setenta e cinco milhões de reais, serve principalmente ao agronegócio. O objetivo é garantir que grandes balsas transportem grãos durante o ano todo, inclusive na seca. Para as comunidades ribeirinhas e indígenas, os impactos ambientais e sociais são enormes.

Eles questionam a falta de uma consulta prévia às populações afetadas, um direito garantido por convenções internacionais. Além disso, o projeto ainda não tem um licenciamento ambiental completo. Apesar disso, uma autorização emergencial do governo do Pará permite os trabalhos por enquanto.

Quem é o vereador Malaquias Mottin

Natural do Rio Grande do Sul, Malaquias Mottin vive em Santarém desde 2004. Ele é empresário e exerce mandato pelo Partido Liberal, a legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro. Sua atuação política é conhecida por defender pautas do agronegócio e por declarações polêmicas.

Em setembro do ano passado, ele questionou a autodeclaração de identidades indígenas em sessão na câmara municipal. Falou em “corrupção na questão de etnias”, o que foi considerado preconceituoso pelo conselho indígena local. Esse histórico ajuda a entender a desconfiança mútua no episódio recente.

O parlamentar também já defendeu a derrubada de mangueiras centenárias na cidade e fez declarações de apoio a Donald Trump. Suas posições frequentemente colocam em lados opostos os interesses de ruralistas e as demandas de povos tradicionais e ambientais. O caso na BR-163 é mais um capítulo dessa tensão.

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