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Sul da Europa está mais inflamável, e chance de perder controle de incêndios é cada vez maior

Você pode até achar estranho começar uma conversa sobre incêndios com uma boa notícia. Mas é verdade: nos últimos dez anos, o sul da Europa registrou 40% menos focos de incêndio. Isso abrange países como Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia.

Essa redução é um fruto direto do trabalho árduo de prevenção e combate. Os países investiram em mais bombeiros, brigadistas e treinamento. Campanhas de conscientização pública e um manejo mais cuidadoso das florestas também deram sua contribuição.

O resultado prático é visível. Na Espanha, por exemplo, a área média queimada por ano caiu de 170 mil hectares para 127 mil hectares. Portugal e Espanha, juntos, conseguiram reduzir pela metade o número de incêndios neste século.

Por que os incêndios estão mais assustadores?

Apesar de serem menos frequentes, quando acontecem, os incêndios agora são mais intensos e devastadores. Um estudo recente que cruzou dados climáticos com registros de queimadas ajuda a entender o porquê.

As condições ideais para o fogo se alastrar — o tal “clima de incêndio” — aumentaram 50% na última década. Esse cenário combina calor extremo, baixa umidade, seca persistente e ventos fortes. Antes, tínhamos menos de dez dias por verão nessas condições. Agora, são em média 25 dias.

Isso significa que, quando um incêndio surge, ele encontra um ambiente perfeito para crescer rapidamente. O fogo se torna mais imprevisível e difícil de ser contido, mesmo com todos os avanços no combate. A sensação é de estar sempre um passo atrás.

O peso crescente das mudanças climáticas

Os esforços humanos de mitigação, por mais eficientes que sejam, não conseguem acompanhar os efeitos da mudança climática. A Europa aquece em um ritmo duas vezes mais rápido que a média global, e os últimos anos foram os mais quentes já registrados.

Isso se traduz em perdas materiais e humanas cada vez maiores. De 2021 a 2024, os prejuízos econômicos na UE superaram 200 bilhões de euros. Três quartos desse valor não tinham cobertura de seguros, impactando diretamente a população. Só este ano, milhares de mortes no continente já foram relacionadas ao calor excessivo.

O risco foi medido por um índice que leva em conta temperatura, chuva, vento e umidade da vegetação. Esse indicador está ficando progressivamente mais intenso no sul da Europa, especialmente na Península Ibérica. Em partes da Espanha e da França, o risco hoje é 50% maior do que nas décadas de 1980 e 1990.

A nova realidade do fogo na Europa

O aquecimento global não causa um incêndio específico, mas aumenta drasticamente a probabilidade das condições perfeitas para ele acontecer. Temperaturas até 2°C mais altas e secas severas, como a que reduziu pela metade a chuva no sudoeste da Espanha, são o novo normal.

Cientistas alertam que o continente precisa se adaptar urgentemente. A gestão proativa do combustível florestal e um melhor planejamento do uso do solo são fundamentais. Em países como a Alemanha, já se discute a transformação de florestas de pinheiro, mais vulneráveis, em florestas mistas e resistentes ao fogo.

Os grandes incêndios que recentemente assolaram regiões da França e da Espanha seguem esse padrão de intensificação. Eles são caracterizados por um comportamento errático e capacidade de se autossustentar. O cenário, como definiu o primeiro-ministro espanhol, é de alta complexidade e crítico. A luta contra o fogo entrou em uma nova e mais difícil etapa.

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