Sempre gostei das músicas de Zezé Di Camargo e Luciano. Meus amigos até estranham, porque meu gosto musical normalmente vai para outros lados, do samba ao jazz. Mas os refrões da dupla têm um poder de conexão difícil de ignorar. Eles falam de um Brasil que não tem vergonha de se emocionar, mesmo que a música seja considerada brega por alguns. Essa simplicidade sincera sempre me tocou.
Quando Zezé começou a apoiar publicamente Jair Bolsonaro, tentei separar as coisas. Achei que era possível curtir as canções sem compactuar com as opiniões do artista. Afinal, são esferas diferentes da vida de uma pessoa, não é mesmo? Fiz um esforço consciente para não deixar a política estragar o prazer que a música me trazia. Acreditei, por um tempo, que aquela fase mais radical iria passar.
Tudo mudou depois do vídeo que ele postou na madrugada de segunda-feira. Nele, Zezé aparece indignado porque as donas do SBT receberam o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes. A linguagem é agressiva e o tom, de raiva pura. O artista que sempre cantou o amor agora parecia dominado por um ódio profundo. Foi a gota d’água para muitos fãs que, como eu, ainda tentavam fazer essa separação.
No vídeo, ele diz não ter nada contra ninguém, mas em seguida ataca as herdeiras de Silvio Santos com palavras pesadas. Zezé as acusa de se “prostituir” por receberem as autoridades e sugere que o SBT não exiba seu especial de Natal. A contradição é evidente. A fala revela um ressentimento que vai muito além de uma preferência política passageira.
Ele tenta se colocar como porta-voz do “verdadeiro” povo brasileiro, como se suas ideias fossem as únicas legítimas. Esquece-se, porém, que em outros momentos Lula foi recebido no mesmo canal de forma cordial. A postura dele cria uma barreira artificial: parece dizer que sua música só é destinada a quem pensa como ele. Isso transforma a arte em uma ferramenta de divisão.
Essa atitude inaugura um problema novo, uma espécie de autoritarismo musical. A ideia implícita é que você só tem direito de ouvir determinada canção se concordar com a visão de mundo do cantor. É um pensamento perigoso, que contamina a cultura com a intolerância. A música, que antes unia, agora é usada como um teste de lealdade ideológica.
Diante disso, a escolha pessoal se torna inevitável. Como alguém que rejeita o bolsonarismo pelos seus ataques à democracia e pela defesa de políticas que prejudicaram o país, não consigo mais ouvir Zezé Di Camargo. A conexão emocional se rompeu. A música passou a carregar um ruído de ódio que ofusca qualquer melodia.
Não se trata apenas de discordar politicamente. É sobre não querer financiar, nem mesmo com um stream, alguém que propaga tanto ressentimento. Saber que ele cobra cachês altíssimos de prefeituras pobres só torna a decisão mais clara. A ideologia dele, agora exposta sem filtros, fere meus valores mais básicos.
O silêncio, nesse caso, é a única resposta possível. Vou deixar suas músicas de lado. Ele não vai sentir falta de um ouvinte, e meus amigos certamente vão achar que melhorei meu gosto musical. No fundo, porém, é uma situação triste. Ver um artista que simbolizou tanto o amor nacional agora ser um vetor de ódio é um retrato doloroso do nosso tempo.
O vídeo viralizado é um sintoma de uma doença social mais ampla. Mostra o quanto regredimos na capacidade de dialogar e respeitar diferenças. Zezé, que tinha como um grande sucesso “É o Amor”, hoje dissemina discórdia. É difícil não olhar para esse cenário sem uma ponta de desalento. A normalidade, seja lá o que isso significar, parece estar cada vez mais distante.
Enfrentamos agora a constatação amarga de que algumas vozes que antes acalentaram o país hoje só contribuem para o seu ruído. O caminho é seguir em frente, buscando outras trilhas sonoras que falem de união, e não de divisão. A vida, afinal, continua. E a música também.
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