Um banqueiro, um ministro do Supremo Tribunal Federal e um resort de luxo. Essa combinação de personagens e cenário é o centro de uma trama financeira que ganhou os holofotes nos últimos tempos. As investigações revelaram uma série de transações milionárias, conversas tensas e uma teia de relacionamentos que levanta questionamentos. Tudo começou a vir à tona a partir da quebra do sigilo de mensagens do banqueiro.
As peças desse quebra-cabeça envolvem Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o pastor Fabiano Zettel, seu cunhado e operador financeiro. Do outro lado, está o ministro Dias Toffoli, que, por meio de uma empresa familiar, era sócio justamente desse empreendimento turístico de alto padrão. Os diálogos obtidos pela Polícia Federal mostram o banqueiro cobrando e autorizando repasses vultuosos para o resort.
A situação expõe os bastidores de operações financeiras complexas. Elas misturam figuras públicas, familiares e fundos de investimento com nomes distintos. Para o cidadão comum, entender esses movimentos pode ser difícil, mas os valores e os personagens mostram que se trata de um caso de grande relevância. As revelações seguem um fio que conecta poder, dinheiro e negócios.
Os diálogos e os repasses milionários
A Polícia Federal interceptou mensagens que mostram a pressão por trás dos pagamentos. Em maio de 2024, Daniel Vorcaro perguntou ao cunhado sobre a situação de um aporte para o fundo do Tayayá. Ele se disse em uma situação complicada e precisando resolver a questão. A resposta de Zettel foi de que o assunto seria tratado na semana seguinte, conforme combinado anteriormente.
Pouco depois, o pastor apresentou uma planilha para o banqueiro aprovar. Em uma das linhas, constava a simples anotação "Tayaya – 15". Para os investigadores, essa era a referência clara a um repasse de quinze milhões de reais. Diante da lista, a ordem de Vorcaro foi direta e imediatista: "Paga tudo hoje". A conversa não deixa dúvidas sobre quem tomava as decisões finais.
O assunto voltou a incomodar o banqueiro alguns meses depois, em agosto. Vorcaro questionou se "aquele negócio do Tayayá" não havia sido concluído. Zettel explicou que o dinheiro já estava com um intermediário, aguardando a ação final dessa pessoa. A demora irritou Vorcaro, que reclamou do problema criado e questionou onde estava o valor. A justificativa foi que os recursos já estavam no fundo controlador do resort.
As justificativas e o afastamento do caso
Procurado para se explicar, Daniel Vorcaro optou por não comentar as acusações. Já o ministro Dias Toffoli se manifestou por meio de sua assessoria no Supremo. Ele afirmou que a venda de sua parte no empreendimento ocorreu antes de ele se tornar relator dos processos envolvendo o Banco Master. O negócio, segundo ele, seguiu o valor de mercado e foi declarado à Receita Federal.
Toffoli também disse não conhecer o gestor do fundo que comprou sua participação. Ele foi enfático ao negar ter recebido qualquer quantia diretamente das mãos de Vorcaro ou do pastor Fabiano Zettel. A nota oficial buscou separar completamente a relação comercial passada de suas funções atuais como ministro da Corte. A transparência perante o fisco foi apresentada como um ponto central.
Curiosamente, foi justamente essa ligação indireta com o resort Tayayá um dos motivos que levaram à retirada de Toffoli da relatoria do caso Master no STF. O imóvel de luxo se tornou um símbolo do emaranhado de interesses entre as partes. A sociedade comercial, ainda que encerrada, criou uma aparente situação de conflito que precisou ser administrada pela própria Corte.
A história da sociedade no resort
A parceria empresarial começou em setembro de 2021. A Maridt Participações, empresa do ministro com seus dois irmãos, vendeu metade de sua parte no Tayayá para um fundo de investimentos chamado Arleen. O valor da transação foi superior a três milhões de reais. Esse fundo, segundo as investigações, integrava uma cadeia de veículos ligados à estrutura financeira de Vorcaro.
O controlador do fundo Arleen era ninguém menos que Fabiano Zettel, o mesmo pastor e cunhado do banqueiro. A empresa familiar dos Toffoli, com capital social modesto, de apenas cento e cinquenta reais, deixou completamente a sociedade do grupo Tayayá em fevereiro do ano passado. A parte restante foi adquirida por outro empresário, encerrando o vínculo formal.
Os irmãos do ministro, um engenheiro e um padre, levam uma vida simples em Marília, no interior de São Paulo. A empresa familiar tinha um dos filhos de um deles na diretoria. A simplicidade da vida dos familiares contrasta com o valor e a complexidade dos negócios envolvidos. O caso segue como um exemplo de como relações pessoais e transações de alto valor podem se cruzar em esferas públicas.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.