Documentos de uma investigação no Congresso e do processo de liquidação do Banco Master revelam um valor surpreendente. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria comprado obras de arte por mais de 260 milhões de reais. Esse montante é cinco vezes maior do que o valor que ele declarou ao Fisco.
A diferença coloca transações milionárias no centro de uma batalha judicial. A disputa acontece simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos. Quadros de artistas consagrados, como Picasso e Basquiat, estão no meio desse imbróglio.
A questão principal é como e onde esses bens foram registrados. As aquisições foram feitas através de empresas em paraísos fiscais, como as Bahamas. Essa prática complica muito o rastreamento pelos órgãos de controle.
Como funciona a declaração desses bens
Para a Receita Federal, a regra para o cidadão comum é clara. No Imposto de Renda, você declara apenas os bens que estão sob sua posse direta. O problema começa quando os itens valiosos estão em nome de empresas ou estruturas complexas no exterior.
Essa foi uma estratégia usada em outros casos famosos, como o do banco Santos. O acervo ficava sob o controle de uma fundação ou holding. Dessa forma, a ligação com o dono real fica enfraquecida nos documentos.
No caso de Vorcaro, a defesa se mantém em silêncio sobre os vazamentos. Os advogados argumentam que não comentam materiais sigilosos obtidos de forma ilegal. Enquanto isso, a Justiça tenta juntar as peças desse quebra-cabeça.
O rastro das transações milionárias
O liquidante do Banco Master, a empresa EFB, seguiu o dinheiro. Eles analisaram movimentações bancárias e documentos em juntas comerciais. O objetivo era localizar os ativos do ex-banqueiro espalhados por uma rede de offshores.
Uma conta específica nas Bahamas movimentou cerca de 420 milhões de reais. Parte desse dinheiro foi usada para comprar um quadro de Basquiat por 4,5 milhões de dólares. A negociação foi intermediada por uma decoradora brasileira residente em Miami.
Mensagens obtidas pela Justiça americana são reveladoras. Quando a galeria fez uma oferta pelo quadro, a decoradora respondeu que “Daniel Vorcaro não venderia por aquele preço”. A troca de e-mails deixa clara a ligação do banqueiro com a obra, mesmo ela não estando em seu nome.
O mercado de arte e a dificuldade de fiscalização
No Brasil, o galerista Thiago Gomide explica como o sistema funciona. A compra de uma obra de arte muitas vezes se assemelha a uma transação comum em loja. Emite-se uma nota fiscal e o processo termina ali, sem necessidade de registro em cartório.
Isso coloca a responsabilidade da declaração integralmente sobre o comprador. “Tem gente que esquece, tem gente que é desorganizada e não declara”, afirma Gomide. Essa informalidade pode abrir brechas para que bens de alto valor fiquem fora do radar.
Vorcaro também movimentava o mercado nacional. Pessoas que visitaram sua mansão em Brasília relatam um grande painel de Di Cavalcanti. O projeto da casa, aliás, foi feito especificamente para valorizar uma coleção de arte.
Um precedente importante: o caso Banco Santos
A história se assemelha a um episódio marcante do sistema financeiro. Com a liquidação do Banco Santos, obras de arte do acervo de Edemar Cid Ferreira foram apreendidas. Parte foi destinada a museus para compensar perdas do Estado.
Outras peças, porém, foram parar no exterior. Um quadro de Basquiat, por exemplo, foi enviado para a Holanda e depois para os Estados Unidos. O liquidante do Santos só conseguiu recuperar a tela anos mais tarde, leiloada por milhões em Londres.
Esse precedente mostra o longo caminho para recuperar ativos. Os credores do Master agora travam uma corrida contra o tempo e contra estruturas internacionais. O destino das obras de Vorcaro ainda é uma incógnita dentro desse processo.
A investigação que continua
A busca por provas segue em várias frentes. Na Justiça dos EUA, o liquidante pediu a intimação de 16 galerias americanas. A ideia é descobrir quais podem ter feito negócios com o ex-banqueiro nos últimos anos.
No celular de Vorcaro, sob custódia da CPMI, há indícios de transferências. Elas totalizam mais de 165 milhões de reais para uma galeria brasileira. As vendas eram intermediadas por uma empresa ligada a um cunhado do banqueiro.
O caso evolui a cada nova descoberta. Enquanto isso, o mercado de arte de luxo continua seu ritmo, entre transações formais e a discrição que sempre caracterizou esse setor. A linha entre colecionismo e estratégia patrimonial permanece tênue.
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