Lembra daquela época em que todo mundo ganhava cupom de comida por preços quase simbólicos? O CEO do iFood, Diego Barreto, viveu esse momento em 2018. Ele chegou à empresa quando ela era muito menor e enfrentava uma guerra de descontos. Naquele tempo, diz ele, todo concorrente parecia ter um milhão de dólares no bolso para bancar promoções. A estratégia funcionou. Em sete anos, o número de pedidos mensais no app saltou de 13 milhões para 180 milhões.
Hoje, o cenário mudou. O iFood domina o mercado, mas novos competidores surgiram no radar. A chinesa Keeta entrou no Brasil com um bilhão de dólares para investir. Outra rival, a 99 Food, que havia saído por não conseguir quebrar a exclusividade do iFood com restaurantes, retornou após uma decisão do Cade. Para seu primeiro ano de volta, ela reservou dois bilhões de reais.
Barreto, no entanto, enxerga a situação com calma. Para ele, a sensação de uma concorrência mais feroz agora é um "efeito psicológico". O executivo lembra que a empresa já enfrentou desafios grandes quando era muito menor. Sua filosofia é simples: se alguém faz o mesmo que você, a saída é fazer melhor. E é com essa mentalidade que ele prepara a empresa para 2026.
O plano para o próximo ano tem um nome: "modo turbo". A ideia é revolucionar a velocidade das entregas. O iFood está testando um serviço que promete trazer a comida em apenas 10 a 20 minutos. Hoje, o tempo médio gira entre 30 minutos e uma hora. Para acessar essa agilidade recorde, o consumidor pagará um adicional de R$ 3,99 por pedido.
Desenvolver o Turbo não foi trivial. Foram quase três anos de estudos para implantar uma nova tecnologia nos restaurantes parceiros. O segredo envolve ajustes no cardápio e no modo de preparo, garantindo que a comida fique pronta em até nove minutos. Barreto evita dar mais detalhes técnicos, mas defende que essa inovação cria valor de um jeito novo.
Ele contrasta a nova fase com a antiga guerra de preços. Promoções agressivas, na visão dele, não são uma estratégia sustentável, mas uma "fase" que pode ser irregular. O Turbo seria o oposto: oferece uma vantagem clara além do desconto. É entregar conveniência e tempo, recursos tão valiosos quanto um bom preço nos dias de hoje.
O desafio de conciliar duas frentes
Para que o modo turbo decole, o iFood precisa do alinhamento de dois grupos essenciais: os restaurantes e os entregadores. E aí a história ganha outros contornos. A chegada das plataformas chinesas animou ambos os lados. Donos de estabelecimentos relatam um aumento significativo no volume de pedidos com as novas concorrentes.
Diego Penido, dono da padaria artesanal Fila do Pão, em São Paulo, é um exemplo. Ele viu seus pedidos de delivery subirem 40% com Keeta e 99. Ele mantém os três apps por enquanto, mas pretende ficar com apenas um ou dois. A razão é prática: acompanhar a contabilidade de várias plataformas, que ele considera confusa, demanda tempo que ele não tem.
Outra queixa comum entre os comerciantes é o atendimento. Muitos reclamam que a interface do iFood é feita apenas por robôs. Na Keeta, por outro lado, eles destacam a presença de representantes humanos que os atendem diretamente. Essa diferença na relação faz muitos reconsiderarem suas prioridades. A concorrência, afinal, trouxe mais opções.
A valorização dos entregadores
Os entregadores também sentiram o impacto da nova disputa. De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, a renda média desses trabalhadores subiu cerca de 30% com a chegada das chinesas. A Keeta, em particular, adotou uma abordagem distinta. Enquanto a 99 seguiu os passos do iFood focando em grandes redes, a rival chinesa mirou nos pequenos e médios estabelecimentos.
Esse segmento, antes menos atendido, encontrou na nova plataforma uma alternativa viável. O resultado é que a Keeta vem ganhando espaço rapidamente no mercado de delivery. Barreto reconhece a disputa, mas acredita que o Turbo será sua resposta. A redução no tempo de espera entre as corridas pode aumentar a renda dos entregadores ao eliminar momentos ociosos.
O CEO também menciona iniciativas de apoio a esses profissionais. A empresa oferece cerca de cem pontos de apoio espalhados pelo país para seus 500 mil entregadores. São espaços para esperar por pedidos, tomar água e usar o banheiro. Em São Paulo, existem cinco desses locais. Barreto frisa que não há obrigação legal para isso, mas vê como uma "obrigação moral".
Muito além do delivery de comida
O iFood de hoje é muito mais do que um aplicativo para pedir comida. Cerca de 40% da receita da empresa já vem de outras frentes, especialmente de sua fintech, o iFood Pago. Esse braço financeiro oferece aos restaurantes serviços como antecipação de recebíveis, empréstimos e cartões. Uma máquina de cartão especial, a "maquinona", permite à plataforma entender o consumo dentro dos estabelecimentos.
Em breve, os serviços financeiros chegarão também ao consumidor final. A empresa testa com 10 mil usuários opções como parcelamento de compras dentro do app e uma linha de microcrédito. Outro negócio em expansão é o delivery de produtos que não são refeições. Itens de supermercado, pet shop e farmácia já representam 15% das vendas e devem chegar a 20% este ano.
O faturamento do grupo segue em crescimento. No último ano fiscal, que terminou em março de 2025, o iFood movimentou 140 bilhões de reais. O lucro operacional, medido pelo Ebitda, foi de 990 milhões de reais. A comissão média sobre cada pedido de comida é de 15%, com um ticket médio de 50 reais. O desafio, como diz Barreto, é que desses 7,50 reais por entrega é preciso pagar o entregador e todos os outros custos, deixando uma margem apertada.
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