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Vale só iniciou limpeza de 3 km do Paraopeba

Sete anos se passaram desde que a lama da Vale invadiu Brumadinho. O Rio Paraopeba, porém, ainda carga as marcas profundas daquele crime. A promessa de limpeza total segue distante da realidade, enquanto comunidades inteiras convivem com os efeitos diários da contaminação.

A mineradora foi condenada e tem a obrigação legal de reparar todo o estrago. O acordo judicial, assinado em 2021, determinou a remoção completa dos rejeitos. A meta era limpar 54 quilômetros do rio até este ano, mas isso não aconteceu. O processo está muito atrasado.

Até agora, a dragagem só atuou em um trecho inicial de três quilômetros. O próximo pedaço, de mais três quilômetros, só deve começar a ser limpo em maio de 2026. Para os trechos seguintes, que vão até quase 50 quilômetros, não há um plano definido. A situação é de incerteza total.

O que já foi feito é muito pouco

Os números mostram a lentidão. Até dezembro do ano passado, apenas 17% do volume estimado de rejeitos havia sido retirado do leito do Paraopeba. Uma parte imensa da lama continua ali, assoreando o rio e liberando substâncias perigosas. O reservatório de Retiro Baixo, que deveria ser limpo, também não tem previsão para intervenção.

Os estudos técnicos comprovam a contaminação persistente. Análises da água superficial encontraram metais e metalóides acima dos níveis seguros. Na água subterrânea, a situação é ainda pior, com alta turbidez, coliformes e presença de metais pesados. O ambiente foi profundamente alterado.

A lama causou a perda de cobertura vegetal nas margens. O curso do rio mudou, fazendo sumir lagoas naturais e aumentar áreas alagadas. Esse desequilíbrio ecológico se espalha por toda a bacia hidrográfica. A recuperação, se um dia acontecer, levará décadas.

As crianças são as mais afetadas

Para além da paisagem, o maior preço é pago pela saúde das pessoas. Um projeto chamado Bruminha acompanha crianças de zero a seis anos desde 2021. Os resultados são alarmantes. Elas têm risco três vezes maior de desenvolver alergias respiratórias por causa da poeira dos rejeitos.

O dado mais chocante veio dos exames de urina. Arsênio foi encontrado em 100% das amostras coletadas das crianças nos três primeiros anos do estudo. Em 2023, além do arsênio, todas as amostras também tinham chumbo e mercúrio. A exposição está aumentando, não diminuindo.

A parcela de crianças com concentração de arsênio acima do limite de segurança subiu de 42% em 2021 para 57% em 2023. São vidas sendo intoxicadas silenciosamente. Entre 2022 e 2023, os relatos de problemas respiratórios nessa faixa etária cresceram de forma generalizada.

A saúde mental também sofreu um baque

Entre os adultos e adolescentes, o panorama não é melhor. A pesquisa Saúde Brumadinho revela que 18,1% dos adultos receberam diagnóstico de depressão. Esse número é quase o dobro da média nacional. Sintomas depressivos e de ansiedade afetam uma parcela enorme da população.

Nas doenças respiratórias, o cenário se repete. A taxa de asma entre os adultos de Brumadinho é de 10,8%, o dobro da média do Brasil. Entre os adolescentes, sobe para 13,2%. A poeira tóxica e o trauma contínuo criaram uma crise de saúde pública de longo prazo.

A vida ao redor do Paraopeba mudou para sempre. A pesca e a agricultura foram inviabilizadas em muitos locais. O rio que era fonte de vida agora é um símbolo de abandono e de uma reparação que não avança. A comunidade aguarda por ações concretas, enquanto o tempo passa.

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