Você sabe aquele programa que promete faculdade particular de graça em Santa Catarina? Pois é, ele está movimentando muito dinheiro público e a situação deste ano tem um detalhe que chama a atenção. Pela primeira vez, a Universidade do Extremo Sul Catarinense, a Unesc, está no topo da lista de repasses. Os números iniciais de 2026 mostram que ela já recebeu cerca de 26 milhões de reais.
A previsão é que esse valor salte para quase 130 milhões até o final do ano. Só para o curso de Medicina, estão previstos 54 milhões. É uma mudança de cenário significativa. Nos três anos anteriores, a Universidade do Vale do Itajaí, a Univali, era sempre a principal beneficiária dos recursos.
Para dimensionar o que isso significa, pense no seguinte: o valor já transferido para a Unesc em 2026 equivale a todo o orçamento anual para água e esgoto nas escolas estaduais. O programa Universidade Gratuita é o carro-chefe do governo na área da educação. Ele usa dinheiro público para pagar mensalidades de estudantes em instituições particulares.
Como funcionam os repasses do programa
A distribuição do dinheiro segue uma fórmula oficial. A Secretaria de Educação afirma que os valores são calculados com base no número total de alunos matriculados em cada universidade participante. Desse modo, teoricamente, quem tem mais estudantes recebe uma fatia maior dos recursos bilionários do programa.
No entanto, os primeiros meses de 2026 não refletem um documento oficial de previsão orçamentária. Um planejamento divulgado em dezembro do ano passado colocava a Unesc apenas na terceira posição. Na prática, ela assumiu a liderança, um fato novo desde 2023. Isso ocorre menos de um ano após uma mudança importante no comando da pasta.
A atual secretária estadual da Educação é Luciane Ceretta. Ela assumiu o cargo em maio de 2025, deixando temporariamente a reitoria da Unesc. Antes de entrar para o governo, ela também presidia a Acafe, associação que reúne as fundações educacionais comunitárias do estado. Essas são as instituições principais beneficiadas pelo programa.
O destaque dos cursos de Medicina
Um ponto que sempre gera discussão é o foco em cursos com mensalidades altíssimas. O Medicina é o caso mais emblemático. Na Unesc, mais de 10% dos bolsistas atendidos pelo programa são desse curso. A instituição concentra sozinha 25% de todos os bolsistas de Medicina no estado em 2026, com 454 beneficiados só no primeiro semestre.
Para comparar, a Univali tem 242 bolsistas em Medicina, mas um número total de beneficiários muito maior: 4.298 alunos. O valor das mensalidades é a raiz da questão. Relatórios internos já apontaram casos de bolsas integrais para faculdades onde a mensalidade ultrapassava 20 mil reais.
Esses valores elevados já geraram até disputas judiciais. Houve situações em que estudantes que perderam o direito à bolsa entraram na justiça para manter o financiamento estadual. Em um caso, uma aluna de Medicina conseguiu uma liminar para ter as mensalidades pagas mesmo sem apresentar comprovantes de renda.
Uma nova liderança nos repasses
Se o ritmo de repasses se mantiver, a Unesc pode bater um recorde histórico em 2026. Ela superaria instituições que tradicionalmente recebem mais por terem um número maior de alunos. No ano passado, por exemplo, a Univali e a Unoesc ficaram à frente, com 157 e 154 milhões de reais respectivamente.
A Unoesc é outro capítulo interessante. Ela foi dirigida pelo secretário que implantou o Universidade Gratuita, Aristides Cimadon, antecessor de Ceretta. O programa foi uma promessa de campanha e se tornou uma fonte crucial de recursos para o sistema de fundações educacionais, que tem orçamento bilionário reservado.
O futuro desses repasses ainda depende de como os cálculos oficiais se ajustarão ao longo do ano. A justificativa da secretaria mantém a lógica do número de matrículas. Mas os primeiros dados de 2026 já escrevem uma nova página, colocando a universidade de origem da secretária no centro do fluxo de recursos.
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