Há uma frase que ficou famosa na história da política externa americana. Durante a guerra do Vietnã, um senador sugeriu ao presidente que simplesmente declarasse vitória e trousse as tropas para casa. A ideia foi rejeitada, e o resultado todos conhecem: uma retirada difícil e uma profunda humilhação para os Estados Unidos.
Anos depois, um dos principais arquitetos daquela guerra, Robert McNamara, fez uma confissão pública. Ele admitiu que os americanos haviam subestimado completamente o nacionalismo vietnamita. Eram movidos por uma arrogância que os cegou para a realidade no terreno, um erro que ele chamou de terrível.
Hoje, sessenta anos depois, esse mesmo sentimento parece guiar as ações americanas em outro conflito. A postura em relação ao Irã repete velhos padrões: menosprezar a força do nacionalismo local e acreditar em soluções militares rápidas. O resultado, pelo menos nesta fase inicial, não tem sido favorável aos interesses americanos.
A ilusão de uma saída fácil
A opção de “declarar vitória e ir embora” voltou à tona, agora como uma saída possível para um conflito complexo. Para um governo perdido em sua própria estratégia, soa como um caminho tentador. No entanto, essa manobra não enganaria ninguém no cenário internacional.
Seria vista exatamente pelo que é: uma derrota estratégica disfarçada. A credibilidade dos Estados Unidos como líder global sairia ainda mais arranhada. Em contraste, a posição do Irã como potência regional se fortaleceria, mostrando resiliência diante da maior força militar do mundo.
A situação atual lembra erros passados, mas com um agravante. A arrogância parece ter atingido um novo patamar, dispensando até mesmo as justificativas que um dia foram usadas para entrar em guerra.
A guerra sem desculpa
A invasão do Iraque em 2003, embora baseada em uma mentira, ao menos tentou apresentar uma razão ao mundo. Desta vez, contra o Irã, nem houve esse cuidado. O conflito começou com uma agressão militar direta, sem qualquer pretexto construído.
A violência seguiu um roteiro traiçoeiro. Líderes com quem se dialogava para a paz foram eliminados em ataques súbitos. Essa não é apenas uma violação grave do direito internacional, é uma ação que carrega o peso da desonra e da covardia.
Essa mancha na reputação americana será duradoura. Enquanto isso, a resposta do resto do mundo ocidental à essa desgraça tem sido de profunda desorientação e uma hipocrisia difícil de ignorar.
A hipocrisia e a coragem solitária
A Europa se vê completamente perdida. Em vez de condenar a agressão inicial, seus pronunciamentos focam na resposta iraniana. Condena-se a reação, mas não o ato que a provocou. É a velha regra que parece valer: o direito internacional é para os outros, não para os aliados próximos.
Nesse cenário desolador, surge um contraste interessante. Quem assume um discurso de paz, cooperação e defesa das instituições multilaterais é a diplomacia chinesa. É uma ironia histórica que merece reflexão, mostrando como as posições no tabuleiro global se transformam.
No próprio Ocidente, porém, ainda há lampejos de dignidade. Na guerra do Iraque, França e Alemanha disseram “não” aos americanos. Agora, na crise com o Irã, a coragem de condenar explicitamente o uso da força coube ao primeiro-ministro da Espanha. É uma posição solitária, mas que resgata um princípio.
Enquanto isso, outros países, como Portugal, limitam-se a lamentar as consequências econômicas. A esquerda portuguesa, assim como boa parte da europeia, parece preferir passar despercebida, acomodada em um papel de oposição sem riscos. O cenário é de um continente que hesita em defender suas próprias convicções, fechando os olhos para as lições da história que ele mesmo ajudou a escrever.
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