Num sábado ensolarado na Flórida, Donald Trump reuniu-se com um grupo seleto de presidentes em seu clube de golfe. O encontro, reservado a aliados de direita, tinha um objetivo claro: anunciar uma nova força conjunta contra o crime organizado. A proposta, chamada Escudo das Américas, promete usar força militar letal para acabar com cartéis e redes terroristas.
A reunião em Doral excluiu deliberadamente nações-chave como Brasil, Colômbia e México. A justificativa, segundo fontes, foi convidar apenas governos alinhados com Washington. A ausência desses países levanta questões sobre a real abrangência e eficácia de uma aliança de segurança regional.
Trump criticou a postura anterior dos Estados Unidos, que teria negligenciado seus vizinhos. Ele afirmou que o crime organizado agora possui estrutura superior às forças de segurança locais. O plano é expandir e aprofundar a presença militar norte-americana para reverter esse quadro.
Quem esteve no clube de golfe
A lista de convidados refletiu uma clara sintonia ideológica. Estavam presentes Javier Milei, da Argentina, e Nayib Bukele, de El Salvador, ambos conhecidas por suas políticas de segurança duras. Daniel Noboa, do Equador, que enfrenta uma guerra contra gangues, também compareceu ao evento.
Outros líderes da região completaram o grupo, incluindo representantes da Bolívia, Costa Rica e Paraguai. O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, marcou presença, sinalizando a futura orientação de seu governo. A Guiana e Trinidad e Tobago, nações caribenhas, foram as únicas não hispânicas na reunião.
A porta-voz do Departamento de Estado confirmou o critério político para os convites. Países considerados não alinhados foram deixados de fora, mesmo que tenham histórico de cooperação, como o Brasil. A coalizão nasce, portanto, com um perfil definido e sem a participação de atores centrais no combate ao narcotráfico.
Os alvos declarados e os não convidados
O discurso de Trump foi direto ao apontar o México como um epicentro do problema. Ele citou a forte presença de cartéis no país, mas sua presidente, Claudia Sheinbaum, não recebeu convite. A exclusão dificulta qualquer ação coordenada na fronteira mais crítica para o fluxo de drogas para os Estados Unidos.
A aliança também mira supostas interferências estrangeiras no hemisfério, uma referência velada à China. O foco militar, no entanto, recai sobre os grupos criminosos. Trump prometeu "fazer coisas incríveis" e acabar com as organizações "de uma vez por todas", usando todo o poderio à disposição.
Enquanto isso, países como Colômbia, com vasta experiência no combate a cartéis e guerrilhas, ficaram de fora do diálogo. A ausência dessas vozes pode limitar a eficácia das estratégias, que parecem priorizar o alinhamento político em detrimento do conhecimento tático acumulado na região.
As menções à Venezuela e a Cuba
O presidente norte-americano fez comentários sobre a Venezuela, elogiando o trabalho da presidente interina Delcy Rodríguez. A declaração sugere uma possível retomada de relações, um movimento que alteraria o equilíbrio geopolítico na América do Sul e impactaria diretamente outros governos da área.
As atenções, porém, se voltaram para suas palavras sobre Cuba. Trump afirmou que o país está "no fundo do poço" e que, após focar no Irã, as forças estadunidenses poderiam se voltar para Havana. Ele mencionou negociações envolvendo o senador Marco Rubio, algo imediatamente negado pelo governo cubano.
Autoridades de Cuba desmentiram qualquer diálogo formal com Washington. Eles reiteraram a disposição para conversar, mas exigem respeito à sua soberania. A ilha enfrenta uma crise energética severa, agravada por sanções, que causa apagões e afeta hospitais e serviços essenciais.
Os desafios práticos de uma aliança militar
A proposta de intervenção militar direta gera dúvidas sobre logística e jurisdição. Como operariam tropas estrangeiras em território soberano de outros países? A história da região é repleta de experiências traumáticas com intervenções, um fator que pode gerar resistência popular e política.
Além disso, a guerra contra as drogas tem décadas de resultados questionáveis. Estratégias puramente repressivas, sem investimento em desenvolvimento social, frequentemente falham. Os cartéis são organizações adaptáveis, que se recomponham mesmo após golpes significativos em suas lideranças.
A sustentabilidade da coalizão também depende da continuidade política. Alianças baseadas em figuras pessoalistas podem se desfazer com mudanças de governo. A exclusão de grandes países da região parece criar mais um bloco político do que uma solução técnica e cooperativa para um problema complexo.
O cenário regional e as ausências
A segurança na América Latina é um quebra-cabeça com peças interligadas. Uma ação no Equador afeta rotas para a Colômbia; uma operação no México impacta o fluxo para os Estados Unidos. Ignorar essa interdependência pode deslocar o problema, sem resolvê-lo de fato.
A falta de um fórum amplo e inclusivo é um ponto frágil. Problemas transnacionais exigem respostas transnacionais construídas com todos à mesa. A cooperação em inteligência e controle financeiro, por exemplo, é mais eficaz quando envolve o maior número possível de nações.
O anúncio em Doral abre um novo capítulo na relação dos Estados Unidos com a região. Seu sucesso ou fracasso dependerá de como será implementado no campo, longe dos holofotes e dos campos de golfe. O desafio real está nos detalhes operacionais que ainda precisam ser negociados.
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