Os principais supermercados da Europa acabam de enviar um sinal forte aos fornecedores de soja do Brasil. Em uma carta direta, eles alertaram que podem parar de comprar o produto brasileiro se não tiverem garantias de que ele não vem de áreas desmatadas. O aviso é uma resposta clara à recente saída de grandes empresas do setor e de sua associação de um importante acordo ambiental.
Esse pacto, conhecido como moratória da soja, existe desde 2006. Ele impede que as tradings comprem soja produzida em terras da Amazônia desmatadas depois de 2008. A decisão de abandonar esse compromisso, portanto, soou como um alarme para os consumidores europeus. Eles são bastante sensíveis a questões que envolvem a floresta e a sustentabilidade.
O grupo de varejistas, que inclui gigantes como Tesco, Aldi e Lidl, se disse profundamente desapontado. Eles destacaram que recuar nesse ponto enfraquece a luta contra o desmatamento. Para eles, a mudança ameaça até os investimentos futuros no setor, diante das mudanças climáticas que o mundo enfrenta. O tom da carta é de cobrança, mas também de expectativa por uma solução.
A reação das empresas e os prazos
As tradings receberam um prazo específico para se explicar: 16 de fevereiro. Até lá, precisam esclarecer como vão garantir a rastreabilidade da soja que vendem. Essa era justamente uma das grandes conquistas da moratória. Sem o acordo, fica difícil para o comprador final saber a origem exata do grão. É uma informação que muitos consumidores europeus exigem hoje.
Procurada, a Abiove, associação que representa as indústrias de óleos vegetais, preferiu não comentar o conteúdo da carta. Anteriormente, a entidade havia afirmado que a moratória cumpriu seu papel histórico. Eles declararam confiança no Código Florestal e nas políticas públicas atuais para manter os altos padrões socioambientais. A visão é de que o mercado e a lei, sozinhos, são suficientes.
Especialistas, no entanto, veem riscos nessa mudança. Uma pesquisadora da Universidade de Oxford, por exemplo, publicou um estudo usando modelagem matemática. A conclusão é que aplicar só o Código Florestal evitaria apenas metade do desmatamento previsto para a expansão da agropecuária até 2050. Já a moratória, se expandida, poderia proteger mais áreas sem atrapalhar o crescimento da produção.
O contexto brasileiro e os impactos futuros
O movimento da Abiove acontece em um momento específico no Brasil. Ele segue o fim da suspensão de uma lei do Mato Grosso que tira benefícios fiscais de empresas em acordos como a moratória. Auditorias estaduais mostram que, nos últimos anos, as tradings receberam bilhões em incentivos do governo. A questão jurídica ainda está sendo analisada pelo Supremo Tribunal Federal.
O tema ganha ainda mais importância porque o governo federal tem a meta de zerar o desmatamento até 2030. A atitude das empresas do agronegócio pode influenciar diretamente o sucesso ou o fracasso dessa promessa. É uma bandeira ambiental importante, mas que depende de ações concretas e de governança em toda a cadeia produtiva.
O embate tem consequências reais. A discussão sobre a soja, por exemplo, ajudou a embalar a decisão do Parlamento Europeu de enviar o acordo comercial com o Mercosul para análise jurídica. Esse processo deve congelar as negociações por pelo menos dois anos. Considerando que a soja é a principal fonte de receita da balança comercial brasileira, o assunto é estratégico. As exportações do complexo soja renderam dezenas de bilhões de dólares ao país no ano passado.
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