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Setor de mineração em MG bloqueia avanços na política ambiental, diz prefeita de Juiz de Fora

A chuva que atingiu Juiz de Fora trouxe uma tristeza imensa. Além das vidas perdidas e das pessoas ainda desaparecidas, muitas famílias estão sem casa. Enquanto a busca continua e o apoio chega, uma conversa necessária vem à tona: como evitar que tragédias assim se repitam.

A prefeita Margarida Salomão foi direta ao ponto. Para ela, preparar a cidade para os novos tempos de chuva forte exige obras e planejamento. O problema é que isso custa muito caro e a prefeitura sozinha não consegue bancar. A solução, então, estaria em parcerias com outros governos.

Nesse ponto, a conversa esbarra em uma realidade complicada. A prefeita avalia que o diálogo com o governo do estado é praticamente inexistente. Ela evita fazer uma crítica política direta, mas é enfática ao dizer que a parceria com as cidades, neste momento, é zero.

O peso da mineração no debate ambiental

O assunto ganha outro contorno quando se olha para Minas Gerais como um todo. Margarida Salomão faz uma ligação importante. Ela acredita que o estado não está totalmente voltado para as questões ambientais. O motivo, na visão dela, tem nome: a mineração.

Ela lembra do papel central da atividade na economia mineira e das tragédias em Mariana e Brumadinho. Na prática, a avaliação é de que o setor mineral acaba bloqueando políticas ambientais mais ousadas. É um debate delicado, que envolve emprego, renda e, agora, a segurança das pessoas diante das chuvas.

O setor de mineração, quando questionado sobre a declaração, preferiu não comentar. A justificativa foi de que os fatos recentes em Juiz de Fora não teriam relação direta com a atividade. A discussão, porém, segue aberta e complexa, mostrando que os extremos climáticos exigem respostas que vão além das cidades.

O Novo PAC como esperança e seus entraves

Diante da dificuldade com o estado, o governo federal aparece como a grande esperança. A prefeita citou o Novo PAC como um “balão de oxigênio” para financiar obras de contenção de encostas e drenagem. Esses projetos são caros e vitais para proteger as áreas de risco.

Só que existe um “porém”. Um projeto específico para Juiz de Fora, que já foi apresentado e aprovado em uma primeira fase, está parado há quase um ano. Ele precisa passar por ajustes de documentos, uma etapa que a prefeita descreve como “duríssima”.

Ela atribui essa morosidade ao clima de rigor dos órgãos de controle pós-Lava Jato. A seriedade é importante, claro. Mas a prefeita defende que a celeridade também é fundamental quando se trata de prevenir desastres. Enquanto a burocracia não anda, as pessoas continuam vulneráveis.

O que é possível fazer agora?

A pergunta que fica é: o que fazer enquanto as grandes obras não saem do papel? A prefeita reconhece os limites. Não dá para mudar um bairro inteiro de lugar. A ocupação desordenada já existe. Mas algumas ações podem mitigar os efeitos.

Intervenções em pontos críticos, mesmo que menores, são uma saída. Outra ideia é usar a própria prefeitura para incentivar ocupações mais seguras. Isso pode ser feito com benefícios no IPTU para quem constrói em áreas menos arriscadas e com investimento em transporte coletivo.

Um dado curioso ilustra o desafio: Juiz de Fora tem um déficit de 15 mil moradias, mas possui 40 mil imóveis vazios. Resolver essa equação não é simples. “Não vou superar o capitalismo”, brincou a prefeita, mostrando que as soluções precisam ser realistas dentro do sistema atual.

O cuidado com as vítimas

Para quem já perdeu tudo, a ação precisa ser imediata. A prefeitura já adotou um auxílio-moradia de pelo menos mil reais para as famílias desabrigadas. É um alívio emergencial, mas insuficiente a longo prazo.

O plano é pensar em uma política habitacional permanente. A ideia é construir conjuntos habitacionais próximos aos territórios originais dessas pessoas. Preservar os vínculos com a comunidade, o trabalho e a escola é tão importante quanto oferecer um teto novo.

A trajetória de Margarida Salomão, que foi reitora da UFJF e deputada federal antes de se tornar a primeira mulher prefeita da cidade, agora é marcada por este desafio enorme. Reeleita no ano passado, ela encara a tarefa de reconstruir não só estruturas, mas também a confiança.

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