Você sempre atualizado

Ser branco no Brasil: entre o desejo da França, o medo do Haiti e o triste fim

Analisar livros didáticos pode revelar silêncios incômodos. Muitas vezes, a Revolução Haitiana aparece como nota de rodapé, um evento distante. Isso não é mero acaso. Reflete um desconforto profundo com o que aquele levante representou.

A França iluminista pregava liberdade, igualdade e fraternidade. Mas quando escravizados no Haiti tomaram essas palavras a sério e lutaram por sua liberdade, o pânico se instalou na Europa. Como conciliar a defesa dos direitos universais com a manutenção da escravidão?

A solução encontrada foi cruel: mudar as regras do jogo. Criou-se a ideia de que tais direitos só eram válidos para os “civilizados”. A humanidade foi dividida entre brancos, vistos como portadores naturais da razão, e os outros, considerados “selvagens”. A cor da pele e a cultura viraram justificativa para a dominação.

O Mito da Superioridade Branca

Essa hierarquia foi a base do colonialismo. A superioridade do “ser branco” era apresentada como um fato natural, uma condição biológica e cultural. O cristianismo e a ciência europeia eram usados como provas dessa suposta eleição. Quem não se encaixava no padrão era excluído do projeto de humanidade.

Essa lógica deixou marcas profundas nas colônias, incluindo o Brasil. Aqui, formou-se uma identidade do branco local que é, no fundo, uma grande contradição. Nos sentimos superiores em relação a negros e indígenas, herança direta desse pensamento colonial.

Ao mesmo tempo, nos sentimos inferiores em relação ao europeu “legítimo”. Vivemos uma espécie de limbo: não somos europeus, não queremos ser vistos apenas como “americanos do sul”, e temos dificuldade de valorizar o que é nosso.

A Neurose Colonial do Branco Brasileiro

Essa dupla consciência gera uma patologia: o complexo de superioridade racial convive com um complexo de inferioridade cultural. Descontamos nossa frustração menosprezando o que é local. Babamos diante de uma catedral gótica europeia, mas torcemos o nariz para uma cerimônia de matriz africana ou indígena.

Não seremos o que idealizamos e, muitas vezes, rejeitamos o que somos. Esse desencaixe é a “doença do branco do sul”. Ficamos miseravelmente divididos entre um ideal inalcançável e um presente que nos assusta.

O exemplo do Haiti é sintomático. Enquanto choramos pela Notre Dame, vemos com desdém o Vodun haitiano. Como se história, arte e espiritualidade não pudessem coexistir e se encontrar nas encruzilhadas das Américas.

Para Além do Desencanto

Resta a pergunta: como desconstruir isso? O primeiro passo é reconhecer o mecanismo. Entender que o racismo e o eurocentrismo são dois lados da mesma moeda colonial. Um pilar é a falsa superioridade sobre outros povos; o outro, a submissão cultural a um centro imaginado.

O último ato dessa pantomima não precisa ser aplaudir réplicas de símbolos alheios. Também não é sobre negar a troca cultural, mas sobre equilibrar a balança. É possível admirar uma obra de arte europeia sem, por isso, desprezar a sofisticação da cerâmica marajoara ou o poder do canto desse galo simbólico dos rebeldes haitianos.

O caminho talvez seja justamente buscar essas encruzilhadas. Olhar com honestidade para nossa história complexa, valorizar as contribuições que foram sistematicamente apagadas e entender que a verdadeira liberdade começa quando nos libertamos desses espelhos distorcidos. A neurose só persiste se a alimentarmos com silêncios e esquecimentos.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.