O Senado argentino aprovou, nas primeiras horas desta quinta-feira, uma extensa reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei. O projeto, uma das principais bandeiras do governo, passou após uma maratona de mais de treze horas de debates acalorados. A votação final foi bastante apertada, com quarenta e dois votos a favor e trinta contra.
A proposta agora segue para análise da Câmara dos Deputados, onde a batalha política certamente continuará. A aprovação no Senado representa uma vitória significativa para a agenda de Milei, que defende uma forte flexibilização das regras econômicas. O governo argumenta que as leis atuais estão ultrapassadas e travam a geração de empregos formais.
A ideia central é tornar o mercado de trabalho mais ágil para, supostamente, atrair investimentos e reduzir a informalidade. Este é um ponto crucial num país onde cerca de quarenta por cento das pessoas trabalham sem carteira assinada. As mudanças, no entanto, tocam em direitos considerados básicos pelos trabalhadores.
Pontos centrais da reforma
Entre as alterações mais impactantes está a facilitação para demitir sem justa causa, com redução no valor das indenizações. As regras para contratar também ficariam mais flexíveis. Outro ponto que gera grande preocupação é a possibilidade de estender a jornada padrão de oito para doze horas diárias.
O projeto ainda impõe novas limitações ao direito de greve, um mecanismo fundamental de pressão dos sindicatos. O governo enxerga essas medidas como modernização e estímulo aos negócios. Para muitos trabalhadores, soa como um convite à precarização e à perda de conquistas históricas.
Para conseguir os votos necessários, os aliados do presidente aceitaram alguns ajustes de última hora no texto original. Eles retiraram, por exemplo, um benefício fiscal que reduziria o imposto de renda para grandes empresas. Mesmo com essas concessões, o núcleo duro da reforma permaneceu intacto.
Reação dos sindicatos e protestos
A aprovação não foi tranquila. Do lado de fora do Congresso, em Buenos Aires, manifestantes se enfrentaram com a polícia durante toda a votação. A tensão foi alta, com uso de gás lacrimogêneo pelas forças de segurança para conter os protestos. O clima reflete a profunda divisão que o tema causa na sociedade argentina.
A principal central sindical do país, a CGT, emitiu uma nota dura repudiando a reforma e a forma como foi votada. A entidade criticou o “tratamento expresso” dado a um tema tão complexo, argumentando que não houve debate de qualidade. Para os sindicalistas, a proposta é uma “falsa modernização”.
Eles afirmam que a mudança representa um claro retrocesso nos direitos coletivos e individuais. A expressão usada é forte: uma “transferência de recursos do trabalho para o capital”. A CGT também direcionou críticas aos senadores que apoiaram o texto, classificando o ato como irresponsável.
Próximos passos e resistência
A confederação deixou claro que a luta não terminou e deve se intensificar na Câmara dos Deputados. O comunicado é um aviso: a entidade usará todas as ferramentas possíveis para barrar o projeto. Isso inclui mobilizações de rua, ações na Justiça e pressão direta sobre os deputados.
A CGT defende que apenas um projeto político que coloque o trabalhador no centro pode reverter esse cenário. O tom é de que a batalha agora migra para outro campo, mas permanece acirrada. A sociedade argentina acompanha mais um capítulo de um debate que define os rumos do país.
O desfecho na Câmara é incerto, e a pressão pública será um fator decisivo. Enquanto o governo celebra uma vitória no Senado, os sindicatos se preparam para uma resistência prolongada. O tema segue no centro do palco político, com argumentos fortes de ambos os lados.
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