Você sempre atualizado

Sem Michele, ato em SP vira palanque para Flávio Bolsonaro

Uma multidão voltou a ocupar a Avenida Paulista neste domingo. O ato, convocado por setores da direita, misturou discursos eleitorais, ataques às instituições e uma narrativa de vitimização. Os holofotes, desta vez, estavam totalmente voltados para o senador Flávio Bolsonaro, que participou pela primeira vez como pré-candidato à Presidência.

O clima foi de campanha antecipada, com o filho do ex-presidente buscando capitalizar o apoio do núcleo mais fiel do bolsonarismo. Pesquisas recentes indicam um cenário competitivo, mostrando empate técnico entre Flávio e o presidente Lula. Esse contexto eleitoral deu o tom a todos os discursos, que buscaram energizar a base para a longa batalha política que se avizinha.

Os pedidos da plateia foram os de sempre: intervenção, impeachment e a tal "liberdade" para condenados. A novidade foi o protagonista do palco. Flávio buscou unir o grupo, atacando o governo federal e o Supremo Tribunal Federal. Ele prometeu uma batalha para derrubar vetos e libertar os presos de 8 de janeiro, isentando apenas o pai da possibilidade de benefício.

Discurso e contradições

Flávio Bolsonaro dedicou parte de sua fala para fazer acenos a um público específico: as mulheres. Ele afirmou que no governo de seu pai elas foram "protegidas" e prometeu não tolerar violência doméstica. A declaração, no entanto, esbarra em um dado concreto da gestão passada. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, o orçamento federal para políticas de enfrentamento à violência contra a mulher sofreu um corte drástico de noventa por cento.

O senador também repetiu a narrativa de que pessoas inocentes foram presas e forçadas ao exílio. Seu discurso tratou os condenados pelos ataques golpistas a sedes dos Três Poderes como vítimas de perseguição. O fechamento foi em tom messiânico, com uma analogia bíblica sobre atravessar o mar e cantar o hino da vitória, claramente direcionada às eleições de 2026.

Ausências e rusgas internas

A unidade mostrada no palco não reflete totalmente a realidade nos bastidores. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, presença constante em atos anteriores, não compareceu. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também faltou, em viagem ao exterior. Essas ausências notáveis alimentam rumores de desalinhamentos dentro da coalizão de direita.

Pouco antes do evento, uma carta atribuída a Jair Bolsonaro circulou nas redes. O texto pedia união e diálogo, sem pressão, sobre as "cobiçadas" vagas eleitorais. A publicação parece ser uma resposta a cobranças públicas. Um dia antes, Eduardo Bolsonaro havia reclamado que o apoio de Michelle e de outros aliados à candidatura do irmão estava "aquém do desejável".

Figuras polêmicas e o tema da segurança

Apesar das fissuras, os organizadores destacaram a presença de outros governadores e figuras públicas. O clima era de tentativa de reagrupamento das forças. Entre os presentes estavam familiares da ex-deputada Carla Zambelli, hoje presa na Itália. Tanto ela quanto Eduardo Bolsonaro, que falou por vídeo, foram tratados como "exilados políticos" pelos oradores.

Outro ponto forte do ato foi a questão da segurança pública. Um vídeo com cenas de assaltos foi exibido, associando a violência urbana ao governo atual. A edição incluía imagens do presidente Lula e de aliados, numa tentativa clara de criar um link negativo na mente do eleitor. A peça de propaganda gerou reações intensas na plateia.

O evento, segundo um deputado envolvido na organização, custou cerca de cento e trinta mil reais. O investimento alto revela a importância estratégica que esses comícios têm para o projeto de retomada do poder. As falas, cuidadosamente calculadas, mostram que a campanha eleitoral, na prática, já começou. O caminho até as urnas promete ser longo e acirrado.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.