O segundo dia de desfiles do grupo especial em São Paulo foi de emoções fortes e momentos inesquecíveis no Sambódromo do Anhembi. Sete escolas passaram pela avenida na noite de sábado e madrugada de domingo, completando a maratona de apresentações que define a campeã do carnaval paulistano. Enquanto algumas agremiações brilharam com evolução firme e enredos impactantes, outras enfrentaram contratempos que mostram como a pressão na pista é grande. O veredicto final, com a coroa e os rebaixamentos, só sai na terça-feira, mas o espetáculo já garantiu histórias para contar.
A abertura da noite ficou por conta da Império de Casa Verde, que apresentou um desfile vibrante e cheio de significado. O enresso falou sobre as "joias negras afro-brasileiras", itens ancestrais que se tornaram símbolos de resistência. Um enorme tigre dourado, símbolo da escola, dominou o carro abre-alas junto com uma escultura da "mãe do ouro". Um momento de ousadia chamou a atenção: o som parou por segundos e os integrantes continuaram batendo palmas no ritmo, sem perder o compasso. No geral, a escola entregou um conjunto equilibrado e colorido, muito elogiado pelo público presente.
Na sequência, a Águia de Ouro levou para a avenida uma viagem a Amsterdã, com referências ao pintor Van Gogh e à escritora Anne Frank. A ala "Judia Resistente", com fantasias que tinham gotas de sangue alegóricas, foi uma homenagem poderosa às mulheres vítimas do Holocausto. O hábito local de usar bicicletas foi exaltado em alegorias com ciclistas gigantes, e um moinho de vento dourado acompanhou a águia símbolo da escola. O desfile também trouxe elementos da vida noturna da cidade, com festas regadas a cerveja e música eletrônica. Algumas alas, porém, geraram certa polêmica ao fazer menção ao uso da cannabis e à prostituição legalizada.
A Mocidade Alegre emocionou o Anhembi ao contar a trajetória da grande atriz Léa Garcia, morta em 2023. A ex-BBB e médica Thelma Assis, vestida com as cores do arco-íris, interpretou a pioneira negra do teatro no carro abre-alas. O enredo relembrou desde sua indicação em Cannes por "Orfeu Negro" até seus papéis em novelas como "Escrava Isaura". A evolução da escola foi um dos pontos altos, mas o desfile precisou ser acelerado no final para evitar a punição por ultrapassar o tempo limite. Na alegoria final, a atriz Adriana Lessa encarnou Léa Garcia no Festival de Gramado, local onde a homenageada faleceu antes de receber a premiação.
Com um enredo sobre vozes ancestrais indígenas, a Gaviões da Fiel montou um desfile grandioso e político. A apresentação começou com a representação de um ritual xamânico Yanomami, usando o pó de Yãkoana. A comissão de frente tinha dez indígenas dançando em torno de um pajé, e o abre-alas trouxe um imenso jacaré em tons ocre – a cor verde, do rival Palmeiras, é evitada pela escola corintiana. Líderes como Raoni, Ailton Krenak e a ministra Sonia Guajajara foram homenageados. Sabrina Sato, fantasiada de flor da floresta, comandou a bateria para a alegria da torcida, que lotou as arquibancadas e cantou o samba como em um dia de jogo no estádio.
A Estrela do Terceiro Milênio fez uma viagem pela vida e obra do compositor Paulo César Pinheiro, celebrando suas parcerias com gigantes da música. Clara Nunes, Baden Powell, Martinho da Vila e Cartola foram alguns dos nomes lembrados no samba. Uma escultura mostrou o poeta amordaçado, referência clara à censura que sofreu durante a ditadura militar. A canção "Pesadelo", que escapou da repressão, teve seu contexto histórico explicado no desfile, com direito à interpretação poderosa da cantora Grazzi Brasil. Foi um desfile que misturou celebração artística e memória política de forma harmoniosa.
A Tom Maior, campeã do grupo de acesso no ano anterior, abordou a trajetória do médium Chico Xavier e a história de Uberaba, cidade onde ele viveu. A abertura ficou por conta de um pajé do Boi Garantido, de Parintins, e o ator Renato Prieto, de "Nosso Lar", representou Chico Xavier em um dos carros alegóricos. A escola enfrentou um pequeno problema técnico com a iluminação de uma alegoria, mas a situação foi resolvida ainda durante o percurso na avenida. O desfile conseguiu manter o ritmo e a mensagem espiritual proposta, mesmo com esse contratempo.
O final da noite foi marcado por um incidente dramático com a Camisa Verde e Branco. O último carro alegórico da escola emperrou bem na entrada da pista, causando um atraso considerável. A agremiação extrapolou o tempo limite em 19 segundos, o que deve custar uma penalidade de três décimos na apuração. Enquanto os componentes empurravam o carro e tentavam manter o ânimo, a tensão era visível. Quando o veículo finalmente voltou a funcionar, o público que ainda estava nas arquibancadas aplaudiu com força em um gesto de solidariedade.
Antes do problema, porém, o desfile "Abre Caminhos" já havia conquistado o público. O enredo celebrava as manifestações de Exu, orixá guardião das encruzilhadas. A beleza das fantasias em vermelho, preto e amarelo ganhou ainda mais destaque com a luz do amanhecer. O samba-enredo de temática macumbeira era vigoroso e empolgou a plateia. O carro abre-alas, inspirado em arte africana, era coberto por três mil placas de búzios. O cheiro de ervas, alas de pomba-giras e o sincretismo com mitos urbanos completaram a apresentação, mostrando toda a força do tema.
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