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Roberto Moreira: O julgamento dos penduricalhos

O debate sobre os salários no topo do funcionalismo público ganha um novo capítulo nesta semana. A conversa vai muito além dos números em si. Ela toca em como o Estado organiza suas carreiras mais altas e quem supervisiona esse sistema. A sensação é que algumas categorias vivem em um universo à parte, com regras próprias. Isso gera uma desconexão profunda com a realidade econômica do país.

Na próxima quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal retoma um julgamento crucial. A discussão gira em torno de uma liminar do ministro Flávio Dino. Ela suspendeu o pagamento de uma série de vantagens criadas para certas carreiras. O objetivo desses benefícios é claro: burlar o teto constitucional dos vencimentos públicos, que hoje está em R$ 46 mil.

Esse valor é o salário de um ministro do próprio STF. A questão central é se outros cargos podem, através de gratificações e indenizações, ultrapassar esse limite. O caso revela uma cultura de privilégios que vai muito além da folha de pagamento. Inclui benefícios como carros oficiais com motoristas e custos de manutenção bancados pelo cidadão.

O sistema atual parece ter criado castas quase autônomas dentro do Estado. Juízes, promotores, procuradores e conselheiros de tribunais de contas operam com grande independência. A pergunta que fica é: quem, de fato, comanda e exige produtividade dessas carreiras? A falta de uma hierarquia clara e de prestação de contas direta ao contribuinte é um ponto de atrito constante.

Quando a insatisfação com o teto salarial aparece, a saída buscada não é a do cidadão comum. Em vez de migrar para o setor privado em busca de melhores ganhos, a solução encontrada é legislar em causa própria. Criam-se novos adicionais e benefícios para elevar a renda muito acima do limite legal. Essa prática ignora por completo a realidade do mercado de trabalho brasileiro.

É um contraste gritante. Enquanto isso ocorre no topo, a grande maioria da população trabalhadora vive com muito menos. Cerca de oito em cada dez brasileiros, em ambos os setores, recebem até R$ 10 mil por mês. A busca por penduricalhos salariais mostra uma bolha de privilégios desconectada do país real.

O peso dessa estrutura privilegiada recai sobre as contas públicas. A arrecadação de impostos já enfrenta enorme dificuldade para cobrir despesas básicas. Os gastos com ativos e aposentados da elite do serviço público pressionam o orçamento. Sobra menos recursos para áreas vitais como saúde, educação e segurança pública.

O financiamento de investimentos em infraestrutura também fica comprometido. A conta não fecha. O cidadão paga a conta duas vezes: primeiro com seus impostos, depois com a precariedade de serviços essenciais. A sensação é de que o Estado está servindo mais a seus próprios agentes de alto escalão do que à população.

O julgamento no STF pode ser um momento de virada. Mais do que decidir sobre uma liminar, os ministros vão colocar na balança a sustentabilidade desse modelo. A decisão terá impacto direto nas finanças de estados e municípios. Ela pode forçar uma reavaliação profunda de como remuneramos as altas carreiras do Estado.

O caminho natural para quem busca ganhos maiores sempre foi a iniciativa privada. A lógica do concurso público, com sua estabilidade, era compensada por uma remuneração limitada pelo interesse coletivo. Romper esse equilíbrio é distorcer o princípio do serviço público. O país parece estar diante de um espelho, precisando definir que tipo de Estado quer sustentar.

A hora da verdade pode estar se aproximando. O sistema atual, marcado por regras próprias e falta de controle, mostra suas fissuras. A pressão por um serviço público mais eficiente, ético e alinhado com as possibilidades do país só aumenta. O veredicto do Supremo é aguardado como um termômetro desse impasse nacional.

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