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Relatório aponta persistência de gado invasor em terra indígena e conexão com prefeitura

Um relatório do Ministério dos Povos Indígenas revela uma situação alarmante no Pará. Mesmo após uma grande operação para retirar invasores em 2023, a Terra Indígena Apyterewa segue sob pressão. O documento enviado à Polícia Federal aponta que ainda havia cerca de 1.600 cabeças de gado dentro do território dos parakanãs no ano passado.

Essa persistência da criação ilegal levou o governo a realizar uma nova ação em dezembro. A operação tinha um objetivo claro: remover todo o rebanho encontrado em 44 pontos já mapeados pelos fiscais. No entanto, a resistência dos invasores foi violenta e terminou em tragédia. Um colaborador do Ibama foi baleado e morto durante os trabalhos.

O caso está sendo investigado pela Polícia Federal. A violência evidencia os riscos extremos que cercam a proteção dessas áreas. A Apyterewa já foi o território indígena mais desmatado do país, e sua recuperação é um processo longo e perigoso. Cerca de 700 indígenas parakanãs dependem desse equilíbrio para viver.

A fragilidade após a retomada

A ação de 2023, chamada de desintrusão, parecia um marco importante. Ela removeu uma vila de invasores e devolveu espaços para o uso tradicional dos parakanãs. Novas aldeias começaram a surgir, um sinal de esperança. A sensação de segurança, porém, foi curta. Proprietários de gado da região de São Félix do Xingu logo encontraram brechas para retornar.

A Funai alerta para um problema crônico nesses casos. Após a desmobilização das forças de segurança, servidores e indígenas ficam completamente expostos. Sem um monitoramento permanente e eficaz, é quase inevitável que os invasores tentem retomar o terreno. Essa vulnerabilidade pós-operação não é exclusiva da Apyterewa.

Ela se repete em diversos territórios indígenas pelo Brasil. Ações pontuais de fiscalização, por mais bem-intencionadas que sejam, não criam uma barreira duradoura. O vazio deixado pela saída das autoridades abre espaço para novas ameaças. A sensação de impunidade acaba incentivando os mesmos ciclos de invasão.

Os detalhes da investigação

O relatório ministerial vai além dos números. Ele mapeia os caminhos usados para transportar o gado e levanta suspeitas sobre os donos do rebanho ilegal. Parte dos animais apreendidos carregava uma marca específica: “Sel” e “Selio”. O documento indica que esse gado era direcionado para uma fazenda nas bordas do território, de propriedade de Sélio Ferreira de Freitas.

Durante a operação de apreensão, advogados ligados a Sélio teriam interferido diretamente no trabalho dos fiscais. O relatório descreve que eles transitavam com carros e motos no meio do rebanho, atrapalhando a condução dos animais. Uma das advogadas citadas é Larissa Mota de Carvalho, que também atua na Procuradoria-Geral do município de São Félix do Xingu.

Ela teria contatado uma servidora do Ibama, apresentando-se como defensora de Sélio. Na conversa, mencionou a possibilidade de entrar com recursos para reaver o gado. A advogada também informou, segundo o documento, que Sélio é pai do secretário municipal de Agricultura. Em contato com a reportagem, Larissa negou atuar profissionalmente para o pecuarista na ocasião.

As negociações e a violência

A procuradoria do município emitiu uma nota para se distanciar dos atos. Afirmou que a intervenção de sua assessoria se deu apenas porque o município foi designado como fiel depositário dos bens apreendidos. Ou seja, seria responsável pela guarda dos animais retirados. A nota indicou outra advogada como a verdadeira defensora de Sélio, que também negou o envolvimento.

O caso ganha contornos complexos com essas negociações e negações. Enquanto isso, o relatório do ministério detalha outros crimes graves ocorridos durante as operações. Foram apreendidas armas de fogo e registrados vários atos de violência, com disparos sendo efetuados contra os fiscais. Houve ainda sabotagem planejada para impedir o trabalho.

Invasores destruíram pontes e espalharam armadilhas perfurantes nas estradas. Tudo para dificultar o acesso e a retirada do gado. O Fundo Municipal de Meio Ambiente de São Félix do Xingu ficou responsável pela custódia dos animais apreendidos. A situação ilustra o conflito intenso entre a fiscalização ambiental e interesses econômicos locais.

A persistência do gado ilegal na Terra Indígena Apyterewa mostra que o desafio vai muito além de uma simples apreensão. É um jogo de força constante, com alto risco de vida para todos os envolvidos. A proteção do território precisa de uma estratégia contínua, que garanta segurança após as operações mais visíveis. Informações inacreditáveis como estas revelam a complexidade da questão fundiária na Amazônia.

A tensão permanece no ar, assim como a pergunta sobre o futuro daquela terra. Os parakanãs seguem reconstruindo suas aldeias, enquanto as autoridades tentam frear novas invasões. Tudo sobre o Brasil e o mundo passa por histórias como essa, que misturam disputa por recursos, falhas na lei e a resistência de quem vive no território. O caminho para uma solução definitiva ainda parece longo e cheio de obstáculos.

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