Enquanto a tensão entre Israel e Irã escalava em junho do ano passado, uma autoridade brasileira estava bem no meio da região. A vice-prefeita de Florianópolis, Maryanne Mattos, integrava uma comitiva de gestores em visita ao país. O contexto era de bombardeios diários em Gaza, mas a viagem oficial tinha como foco conhecer técnicas de segurança.
A gestora recebeu cerca de dez mil reais em diárias da prefeitura para a missão. Em suas redes sociais, ela descreveu a experiência de ficar em um bunker de prevenção, recebendo alertas de ataques durante a madrugada. Apesar do cenário, sua avaliação era de que estava “tudo normal”, pois os avisos chegavam com antecedência.
Dessa experiência, Maryanne trouxe na mala uma proposta concreta. Ela quis implantar em Florianópolis um modelo de voluntariado na segurança pública, inspirado no que viu funcionando em Israel. Lá, voluntários participam de atividades como defesa civil e patrulhas, um sistema que chamou sua atenção.
A implantação de um modelo polêmico
A ideia foi abraçada pelo prefeito Topázio Neto, que creditou publicamente à vice a iniciativa. Ele destacou que Maryanne trouxe a ideia e a legislação que seria “referência no Brasil inteiro”. O projeto foi batizado localmente como ICE, nome que remete à polícia de imigração dos Estados Unidos.
Desde o lançamento oficial em setembro de 2025, a vice-prefeita fez campanhas intensas de divulgação. Guarda civil há mais de duas décadas, ela acumula o cargo de vice com a secretaria de Segurança. Usou suas redes sociais para apresentar cada etapa de implantação do novo modelo de agentes voluntários.
Recentemente, o projeto ganhou os holofotes nacionais após a viralização de um vídeo. Nele, cinco agentes voluntários abordam uma pessoa em situação de rua. O caso está sendo apurado pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública, que investigam as práticas adotadas pelo grupo.
Quem é a idealizadora do projeto?
Maryanne Mattos tem uma trajetória política marcada por conexões. Foi indicada pelo governador Jorginho Mello para ser vice na chapa de Topázio Neto. Antes, candidatou-se a deputada estadual sem sucesso, obtendo uma votação modesta comparada a colegas de partido.
Sua ascensão ao cargo, no entanto, não dependeu apenas das urnas. A candidatura a vice foi articulada pelo governador, que também emprega o marido de Maryanne em um cargo público. O salário dele em uma fundação estadual supera os vinte e quatro mil reais, valor que soma mais de cinquenta e quatro mil com sua aposentadoria.
Curiosamente, a remuneração da própria vice-prefeita é uma incógnita. Ela acumula os cargos de guarda municipal, secretária e vice, mas sua ficha funcional está bloqueada no Portal da Transparência. A justificativa é uma portaria que protege dados da equipe de segurança da cidade.
Batman, armas e uma marca pessoal
Em sua passagem como vereadora, Maryanne ficou conhecida por um projeto peculiar. Ela propôs a instituição do “Dia do Batman” no calendário oficial de Florianópolis. A ideia era usar o personagem para debater segurança pública, mas a proposta não foi adiante e virou alvo de ironias.
Apesar disso, a figura do herói continua presente em suas ações. O Batman foi convidado para seu último aniversário, comemorado no Jardim Botânico em um dia de fechamento ao público. A vice também aparece frequentemente fardada e portando arma de fogo em publicações nas redes sociais.
Seu discurso público valoriza símbolos associados ao armamento. Ela comemora a compra de novas pistolas para a Guarda Municipal e critica restrições ao porte de armas para os agentes. Em eventos, defende que guardas municipais devem ocupar espaços na política institucional.
Um discurso que ressalta diferenças regionais
A gestora não poupou críticas ao comentar a chacina ocorrida no Rio de Janeiro em novembro de 2025. Ela atribuiu o episódio a um “governo federal frouxo” e foi enfática ao fazer um contraponto. “Não podemos deixar acontecer no nosso Estado. O sul do Brasil é diferente”, afirmou.
De fato, o modelo implementado em Florianópolis parece único. Não há registros de um grupo de “guardas informais” ou “voluntários” remunerados atuando dessa forma em outras capitais. O efetivo de agentes comunitários na cidade é o menor do país, o que levanta debates sobre a substituição de mão de obra.
Maryanne anunciou que o projeto, inicialmente pensado para o verão, continuará operando durante todo o ano. Ela se gaba de trabalhar para manter o título de “capital mais segura do Brasil”. O experimento catarinense segue em andamento, sob os olhos atentos das instituições e da opinião pública.
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