Você sempre atualizado

Primeira faculdade do MST é credenciada pelo Ministério da Educação no Rio Grande do Sul

A educação no campo brasileiro acaba de dar um passo histórico. No assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, nasce a primeira faculdade fruto da luta e da organização direta dos trabalhadores rurais. Esse novo capítulo na educação superior não começa do zero, mas coroa uma caminhada de mais de quarenta anos.

O credenciamento federal da Faculdade Josué de Castro é muito mais que um trâmite burocrático. Representa o reconhecimento oficial de um projeto educativo já vivo e pulsante nos assentamentos. É a validação de um saber construído com as mãos calejadas e a mente inquieta de quem vive e transforma a terra.

Essa conquista é, acima de tudo, um legado de décadas de persistência. Ela materializa a pedagogia das escolas itinerantes e dos assentamentos, mostrando que o conhecimento também brota da luta pela reforma agrária. Agora, essa experiência ganha autonomia para crescer e formar ainda mais pessoas.

Uma história que vem de longe

A semente dessa faculdade foi plantada em 1995, com a criação do Instituto de Educação Josué de Castro. A ideia sempre foi oferecer ensino médio e formação técnica para jovens e adultos de assentamentos e periferias. O foco estava na união entre educação, trabalho e organização coletiva.

Ao longo dos anos, o instituto firmou parcerias sólidas com universidades públicas. Juntos, levaram cursos superiores para perto de quem precisa. Esse trabalho foi essencial para acumular experiência e provar que o modelo funciona. A sala de aula sempre esteve conectada com a realidade prática da vida no campo.

O credenciamento oficial, porém, é um divisor de águas. Ele dá autonomia completa para criar e gerir seus próprios cursos de graduação. Isso significa poder ampliar o acesso, abrir mais turmas e desenhar formações que dialoguem diretamente com as necessidades das comunidades. O sonho antigo ganha asas próprias.

O primeiro curso e seu propósito

O pontapé inicial da nova faculdade será um curso com identidade muito clara: o tecnólogo em Gestão de Cooperativas. A escolha não é por acaso. Ele nasce para fortalecer a administração de empreendimentos coletivos e da economia solidária.

O curso vai atender diretamente às cooperativas da reforma agrária e outras empresas sociais. Pense nas associações de produção, nas feiras agroecológicas e até em cozinhas comunitárias. São iniciativas que movimentam a economia local e garantem a soberania alimentar.

A formação visa entregar ferramentas concretas para gerir esses projetos. Os estudantes vão aprender a organizar a produção, fazer a gestão financeira e ampliar os negócios de forma coletiva. É ciência aplicada para fortalecer a autonomia das comunidades no campo e na cidade.

Ciência com os pés no chão

A produção de conhecimento nesta faculdade terá um compromisso inegociável. Tudo será orientado para enfrentar os problemas reais vividos pelos trabalhadores. O tripé ensino, pesquisa e extensão estará a serviço dos territórios.

A ideia é que a ciência produzida dentro da sala de aula retorne para a comunidade como solução prática. Se o desafio é uma praga na lavoura, a pesquisa vai buscar alternativas agroecológicas. Se a questão é a comercialização, os estudos vão focar em novas redes de escoamento.

Esse impacto pretende ser amplo. A instituição se coloca à disposição da classe trabalhadora como um todo, lidando com seus desafios específicos. O conhecimento gerado vai circular, beneficiando não só o Rio Grande do Sul, mas camponeses de todo o Brasil.

Um olhar para o mundo

A ambição da Faculdade Josué de Castro não conhece fronteiras geográficas. Com sua autonomia, ela projeta uma atuação internacionalista, solidária a outros povos em luta. A proposta é um diálogo global entre experiências populares.

A instituição já se coloca aberta para contribuir com a formação de jovens de países que enfrentam crises profundas. A realidade de lugares como Gaza, Haiti, Venezuela e Argentina entra na pauta. A troca de saberes será enriquecedora para todos os lados.

Esse projeto se sustenta em uma pedagogia emancipadora. Ela valoriza a vivência dos educandos e educadores, criando um conhecimento que nasce da prática coletiva. A faculdade se consolida, assim, como um farol de esperança e organização.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.