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Prejuízo de R$33 milhões some da prestação de contas da Loterj no governo Castro

A relação entre a loteria do Rio de Janeiro e a empresa que cuida do pagamento dos prêmios está sob suspeita. Documentos mostram uma dívida milionária que simplesmente sumiu dos relatórios oficiais. Enquanto isso, a loteria seguiu como se nada tivesse acontecido.

A empresa em questão é a RioPag, responsável por movimentar centenas de milhões em apostas desde 2023. Esse dinheiro vem das raspadinhas e das casas de apostas esportivas credenciadas no estado. Tudo era para ser transparente, mas números importantes começaram a desaparecer.

O caso ganha um contexto político delicado. O então governador Cláudio Castro renunciou em meio a investigações sobre abuso de poder. O timing não pode ser ignorado, pois as suspeitas envolvendo a Loterj e sua operadora surgem neste mesmo cenário turbulento.

Uma dívida que evaporou nos papéis

Em fevereiro de 2025, a própria Loterj enviou um ofício à RioPag alertando sobre uma inadimplência. O valor era altíssimo: R$ 33,7 milhões que não teriam sido repassados pela empresa. A comunicação foi formal e direta, indicando um problema grave na gestão do contrato.

No entanto, quase um ano depois, o relatório oficial de fiscalização contou uma história bem diferente. O documento, de janeiro de 2026, nem menciona os R$ 33,7 milhões. Fala apenas em "riscos de inadimplência" e cita que R$ 19,5 milhões foram colocados em custódia.

A grande questão é que esses R$ 19,5 milhões parecem ser apenas os repasses mensais normais, uma obrigação de contrato. O rombo inicial de R$ 33,7 milhões, que havia sido oficialmente comunicado, simplesmente desapareceu do registro final. A Loterj, mesmo assim, considerou o assunto resolvido.

O silêncio das partes envolvidas

Procuradas para esclarecer como a dívida milionária teria sido resolvida, nem a Loterj nem a RioPag responderam. A falta de explicação pública deixa um vácuo sobre o destino de um valor que pertence ao estado e, por extensão, à população.

Órgãos de controle, como o Tribunal de Contas e o Ministério Público do Rio, também foram questionados. A reportagem perguntou se tinham conhecimento do caso e se receberam justificativas. Até o momento, não houve posicionamento, o que mantém as dúvidas no ar.

Especialistas ouvidos sobre o caso são claros: autarquias têm o dever de fiscalizar contratos com rigor. Se há um prejuízo reconhecido, é obrigação instaurar processos e buscar a reparação do dano. Omitir informações em relatórios oficiais é um procedimento no mínimo questionável.

Indícios de um tratamento privilegiado

Os documentos revelam ainda um aspecto curioso: a relação próxima com a casa de apostas Pixbet. Em reuniões internas, a Loterj destacava que a empresa era responsável por mais de 80% do faturamento mensal do sistema. Sua saída seria um golpe duro.

Pouco antes de ser apontada como inadimplente, a RioPag foi envolvida em uma readequação de contrato. A justificativa oficial foi a "baixa adesão de bets". O objetivo declarado era reduzir custos para as operadoras, em um movimento visto como forma de reter a Pixbet.

O termo aditivo ao contrato foi publicado, mas os documentos não deixam claro o motivo do valor determinado. As manobras ocorreram enquanto a Pixbet patrocinava um dos maiores clubes do país, o Flamengo, em negócio milionário. As peças parecem se encaixar de forma conveniente.

O sumiço do prejuízo nas comunicações

Após o ofício inicial de fevereiro de 2025, que citava os R$ 33,7 milhões, a dívida deixou de aparecer na troca de correspondências. A resposta da RioPag na época foi vaga, mencionando apenas a criação de uma "subconta" para custódia, sem confirmar valores.

A última menção direta ao problema data do final daquele mesmo mês, quando a RioPag pediu mais prazo para ajustes. Depois disso, o assunto só ressurgiu um ano depois, já amenizado no relatório de prestação de contas, como um mero "risco".

O e-mail usado pela Loterj como prova da solução apenas informa o pagamento do repasse mensal comum. Não há qualquer confirmação sobre o depósito dos milhões supostamente devidos. A lacuna entre a acusação e a "solução" apresentada é enorme.

A fiscalização que aprovou uma conta incompleta

O relatório final que absolveu a operadora foi assinado por uma gestora designada pelo governo Castro. Nele, a Loterj declara estar "plenamente atendida" após a custódia dos R$ 19,5 milhões, valor que, repita-se, não corresponde ao rombo original.

A versão detalhada do documento mostra que o valor custodiado é compatível apenas com os repasses contratuais mensais. Ou seja, era dinheiro que já deveria ser entregue de qualquer forma, independentemente da suposta inadimplência anterior.

A conclusão é que um prejuízo de milhões identificado oficialmente foi suavizado até virar um risco superado. O processo administrativo que deveria punir e recuperar o dinheiro parece não ter existido. A conta foi fechada sem explicar o principal.

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