Você sabia que documentos públicos, aqueles que deveriam ser exemplos de precisão, às vezes escondem falhas surpreendentes? Em Chapecó, cidade que se tornou referência em políticas para pessoas em situação de rua, uma análise detalhada dos contratos da prefeitura revela problemas graves. Quatro dos cinco acordos firmados com clínicas psiquiátricas em 2025 apresentam redações confusas e trechos copiados de outros contextos. Isso levanta uma questão fundamental: como podemos confiar em processos tão descuidados quando o assunto é a saúde de pessoas vulneráveis?
A situação ficou clara quando vereadores e pesquisadores examinaram os documentos. Em três contratos, com clínicas como Mosaico e Moni Pfeifer, aparece uma frase absurda sobre a rescisão do acordo. O texto menciona a cobrança de serviços dos “tutores dos animais”. Sim, animais. A redação parece ter sido adaptada, de forma descuidada, de um edital para credenciamento de veterinários, focado no controle de cães e gatos. Não é um simples erro de digitação, mas um sinal de como o processo foi conduzido.
Outro contrato, com a clínica Angels, apresenta problemas similares. O documento fala em serviços prestados “ao aluno” e veda a participação na “banca examinadora” de parentes. Termos típicos de um processo seletivo, não de um tratamento de saúde. A vereadora Marina Bernardes, que identificou a falha, alerta que a vagueza do texto compromete a fiscalização. Sem clareza sobre os tratamentos oferecidos, fica difícil garantir que o dinheiro público, quase R$ 1,7 milhão no total, está sendo bem aplicado.
Um erro que vai além da burocracia
Especialistas enxergam nesses equívocos muito mais que falhas administrativas. Para a professora Ianni Scarcelli, da Universidade de São Paulo, usar trechos de contratos veterinários para pessoas em sofrimento psíquico carrega uma simbologia poderosa. É como se a vida humana, quando considerada incômoda, fosse reduzida a algo a ser “gerenciado” ou “contido”. A mensagem subliminar é preocupante: trata-se mais de afastar da vista do que de cuidar de fato.
Quando o sofrimento é enquadrado como um serviço padronizado, perde-se a noção essencial do cuidado individual. A abordagem deixa de considerar a singularidade de cada história, a escuta atenta e a construção de vínculos. Nesse modelo, a internação compulsória, prevista no “Programa Mão Amiga” de Chapecó, corre o risco de se tornar apenas uma ferramenta de higienização social. O foco sai do campo dos direitos e vai para um assistencialismo que não resolve as causas reais do problema.
A eficácia de políticas baseadas principalmente no afastamento é questionável. Cidades como Joinville já observam o exemplo de Chapecó, mas será que estão replicando também essas distorções? A prática de contratar clínicas privadas pode criar uma gestão da pobreza pela via mais fácil: a da exclusão. O perigo é transformar a internação em resposta automática para a pobreza extrema e o uso de drogas, sem enfrentar as complexidades por trás dessas realidades.
O silêncio que fala por si
Diante das inconsistências, a pergunta que fica é: como esses contratos foram aprovados? Assinados pelo secretário municipal de saúde, os documentos estão disponíveis para qualquer cidadão consultar no portal da transparência. A falta de revisão cuidadosa sugere uma pressa ou descaso incompatíveis com a seriedade que o tema exige. A prefeitura de Chapecó, procurada para se manifestar sobre os erros, manteve silêncio até o fechamento desta análise.
O programa é vendido como um exemplo de sucesso, mas seus alicerces documentais estão fragilizados. Se nem o contrato inicial consegue definir com clareza o objeto e as regras, o que garante a qualidade do acolhimento oferecido? São 72 pessoas atendidas atualmente, entre comunidade e residencial terapêutico. Cada uma delas merece um projeto de cuidado pensado para seres humanos, não um texto genérico adaptado de outras finalidades.
Informações inacreditáveis como estas mostram a importância de examinar os detalhes. O caminho para políticas públicas efetivas passa pelo rigor e pelo respeito. Quando a redação de um contrato trata pessoas como se fossem animais ou alunos em um teste, algo fundamental se perde. A dignidade não pode ser resgatada com documentos que, eles mesmos, perderam seu sentido original.
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