O pré-Carnaval em São Paulo costuma ser um ensaio animado para a folia, mas este ano um episódio chamou a atenção por motivos que vão além da festa. Enquanto milhões se preparam para brincar, uma decisão da administração municipal gerou questionamentos. A situação envolve regras claras, um bloco de peso e uma série de contratempos que deixaram a cidade em alerta.
Tudo começou com um guia divulgado meses antes, estabelecendo as normas para os blocos de rua. O documento era explícito: no pré e pós-Carnaval, não seriam aceitas novas inscrições. A regra visava organizar a cidade, permitindo apenas eventos já tradicionais e com histórico conhecido. Era uma tentativa de prever e controlar o fluxo gigantesco de pessoas.
No entanto, o domingo de pré-Carnaval apresentou uma novidade. Antes do tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta, que há 17 anos abre a folia, outro bloco tomou as ruas. Tratava-se do bloco Skol, com a estrela internacional Calvin Harris. A presença dele, que não havia desfilado no ano anterior, imediatamente levantou uma dúvida sobre o cumprimento das regras estabelecidas.
A exceção que confirmou a regra
A pergunta que ficou no ar foi simples: como um bloco novo pôs os pés na rua justamente no período proibido para novas inscrições? A justificativa não veio de forma clara. O que se sabe é que o evento tinha um patrocínio de peso. A Skol, marca da Ambev, é a patrocinadora oficial do Carnaval da cidade.
Essa conexão direta com o patrocínio principal do evento municipal criou um cenário delicado. Enquanto blocos independentes seguiam o manual, um bloco ligado à patrocinadora oficial parecia operar sob um regulamento diferente. A situação não passou despercebida pelas autoridades legislativas.
Dias antes do desfile, uma vereadora já havia enviado um alerta à prefeitura. Ela questionava a segurança de reunir dois megablocos, com potencial multimilionário, na mesma via. A resposta oficial garantiu que medidas de contenção e logística estavam planejadas. A realidade nas ruas, porém, seguiu um roteiro mais caótico.
O resultado nas ruas da Consolação
O poder de atração do bloco foi inegável. Além do DJ escocês, nomes como Nattan e Zé Vaqueiro levaram uma multidão avassaladora para a rua da Consolação. O espaço rapidamente ficou superlotado, transformando a festa em um cenário de tensão. O plano de contingência da prefeitura precisou ser acionado ainda durante o evento.
Os problemas foram graves. Houve empurra-empurra generalizado, pessoas passando mal e atos de vandalismo. A pressão da multidão foi tanta que grades de um prédio público na avenida foram destruídas. O bloco seguinte, o já consolidado Baixo Augusta, teve seu início atrasado pelo tumulto. Seis foliões desmaiados foram atendidos em hospitais.
O saldo do dia foi uma investigação aberta pelo Ministério Público para apurar os fatos. A promotoria quer entender como um bloco não previsto nas regras originais pôde desfilar e gerar tamanha desorganização. A prefeitura, por sua vez, evitou comentar a contradição com seu próprio regulamento.
As consequências e os ajustes
Em comunicado, a administração municipal focou nos desdobramentos práticos. Reconheceu a superlotação e a ativação do plano de emergência. Informou que todos os atendidos nos hospitais já receberam alta. A patrocinadora do bloco, a Ambev, optou por não se manifestar publicamente sobre o ocorrido.
Olhando para frente, a prefeitura anunciou ajustes de segurança para os dias de Carnaval que virão. Entre as mudanças, está o reposicionamento de postos de saúde móveis e a criação de novas áreas de saída na região do Ibirapuera. A ideia é melhorar o fluxo e evitar novos gargalos.
O episódio deixou uma lição clara sobre a importância da previsibilidade. Quando as regras do jogo mudam para alguns, o risco para todos aumenta. A cidade agora observa se os ajustes prometidos serão suficientes para garantir que a folia permaneça uma celebração segura para seus milhões de participantes.
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