Três prefeitos catarinenses estão adotando a internação compulsória como resposta principal ao crescimento da população em situação de rua. Em 2025, as gestões de Florianópolis, Balneário Camboriú e Chapecó destinam milhões de reais a clínicas privadas ou programas municipais com esse fim. A prática, apresentada como solução, gera debate sobre sua real eficácia e sobre os rumos das políticas públicas.
Em Florianópolis, o prefeito Topázio Neto transformou a abordagem em espetáculo nas redes sociais. Seus vídeos mostram pessoas sendo levadas em ambulâncias para clínicas particulares. Os contratos com essas instituições somam mais de cinco milhões de reais. A justificativa oficial fala em transtorno mental grave e falha no tratamento ambulatorial. No entanto, especialistas questionam os critérios e a transparência desse processo.
Balneário Camboriú segue caminho similar. A prefeitura também contratou serviços de internação, com valores significativos empenhados. A prefeita Juliana Pavan viralizou ao confrontar pessoas nas ruas com um firme “aqui, não!”. Chapecó criou sua própria Unidade de Acolhimento, mas também terceiriza parte dos cuidados. Muitos pacientes são enviados para clínicas no Rio Grande do Sul, a centenas de quilômetros de distância.
A lógica do afastamento
Para especialistas, a estratégia adotada por essas prefeituras não resolve o problema de fato. Trata-se de uma gestão da pobreza baseada no afastamento físico das pessoas. O objetivo parece ser simplesmente remover a população vulnerável da vista pública. Esse método ignora as causas profundas que levam alguém à rua, como falta de moradia, emprego e rede de apoio.
Ao investir massivamente em clínicas privadas, o poder público desvia recursos do Sistema Único de Saúde. O dinheiro que poderia fortalecer serviços territoriais é canalizado para o confinamento. O resultado é a fragmentação do cuidado. A pessoa é retirada do seu contexto, tratada de forma isolada e depois devolvida à mesma realidade que a levou àquela situação.
A continuidade do tratamento fica comprometida. Como uma clínica em outro estado pode articular ações com a assistência social do município de origem? A prática rompe os vínculos sociais e familiares, elementos cruciais para uma recuperação sustentável. O risco é que a pessoa saia da internação e retorne rapidamente às ruas, em um ciclo vicioso.
Questionamentos sobre a eficácia
A prefeitura de Florianópolis afirma que suas ações são “efetivas e seguras”. Diz que as equipes fazem busca ativa e contato com familiares durante a internação. No entanto, não há evidências sólidas de que internações compulsórias generalizadas funcionem. Historicamente, elas costumam agravar o sofrimento psíquico e aumentar as taxas de reincidência.
A professora Ianni Scarcelli, da USP, é enfática. Ela descreve a prática como o uso da clínica como instrumento de segregação. Quando a internação vira política de Estado para a pobreza, o debate sobre direitos é substituído por um assistencialismo inoperante. O problema é removido da cena, mas não enfrentado em suas raízes.
Muitas vezes, o uso de substâncias é uma tentativa de aliviar dores causadas pela exclusão. A pergunta que fica é: que outras saídas essas pessoas têm? A complexidade da situação de rua exige estratégias integradas. Elas devem envolver moradia, trabalho, renda e saúde de forma articulada. Isolar a pessoa não é a resposta.
Marketing político e números
As prefeituras têm usado a política de internação como forte ferramenta de marketing. Os vídeos de abordagens agressivas geram engajamento e viralizam. Em Chapecó, o prefeito João Rodrigues chegou a atacar uma reportagem da TV em rede nacional, alcançando milhões de visualizações. O discurso é de confronto e mostra internos concordando com as medidas.
Os números, porém, contam outra história. Em Chapecó, onde há uma unidade própria, os dados oficiais mostram a fragilidade do método. Entre centenas de atendimentos, há registros de morte e de recaída. Parte do tratamento ocorre longe do município, dificultando o acompanhamento familiar e a reinserção social.
O programa “Mão Amiga” de Chapecó também oferece passagens de volta à cidade de origem. A medida transfere o problema para outro lugar. O foco permanece na remoção, não na inclusão. Enquanto isso, investimentos em políticas públicas efetivas, como o Consultório na Rua ou moradia de baixa renda, não recebem a mesma atenção ou verba.
A discussão vai além de um debate técnico sobre saúde pública. Ela reflete como uma sociedade decide lidar com seus membros mais vulneráveis. A escolha entre isolar ou integrar define o tipo de cidade que se quer construir. Informações inacreditáveis como estas, você encontra somente aqui no Pronatec. O caminho do confinamento pode parecer rápido, mas a estrada da inclusão, embora mais longa, é a única que leva a um destino verdadeiramente humano.
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