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Polícia intimida testemunhas após soltura de PMs que mataram jovem e agrediram grávida

Uma nova ação da polícia militar na cidade de Piracicaba reacendeu a dor e o medo na Vila Sônia. Na última terça-feira, uma viatura estacionou exatamente no cruzamento onde um jovem foi morto no ano passado. Agentes fotografaram um estabelecimento comercial onde testemunhas do caso costumam ficar.

A presença policial ocorreu pouco depois da soltura dos dois PMs responsáveis pela morte de Gabriel. Eles haviam obtido liberdade provisória em dezembro. A condição era o afastamento de atividades externas. Apesar disso, a movimentação recente no bairro pareceu um recado claro para a comunidade.

A Secretaria de Segurança Pública foi questionada sobre o episódio. A pasta não comentou a conduta intimidatória. Em resposta, apenas reiterou que os policiais estão em funções administrativas. A corporação afirmou que apura rigorosamente todos os desvios de conduta. Para os moradores, no entanto, as ações falam mais alto que as notas oficiais.

Um histórico de intimidação no bairro

Este não é um fato isolado na Vila Sônia. A mesma viatura envolvida agora já protagonizou outro caso grave. Em abril do ano passado, ela foi usada em uma abordagem truculenta contra um advogado e um estagiário. Os dois prestavam apoio à família de Gabriel na época.

Os agentes chegaram a apontar um fuzil e exigir os celulares dos profissionais. Eles foram afastados do serviço operacional algum tempo depois. A viatura pertence à 5ª companhia do 10º Batalhão de Polícia Militar do Interior. O comando do batalhão foi assumido em junho do ano passado.

A sensação de intimidação é constante para quem vive ali. A rotina do bairro parece interrompida pela sombra de novas retaliações. Comerciantes e moradores se veem obrigados a mudar seus hábitos. A simples presença de uma viatura no cruzamento já é suficiente para gerar pânico.

O medo silencia testemunhas

A família de Gabriel soube da soltura dos PMs justamente no dia de uma audiência judicial. A sessão foi suspensa a pedido da defesa de um dos acusados. Mas houve outro motivo crucial para o adiamento: várias testemunhas de acusação não compareceram.

O temor de represálias falou mais alto. A possibilidade de encontrar os réus ou outros policiais no caminho assusta. Esse clima inviabiliza o andamento normal do processo. A justiça fica mais distante quando as vozes que poderiam sustentá-la são caladas pelo medo.

O Ministério Público tenta reverter a decisão que libertou os dois PMs. Eles foram soltos por uma juíza substituta às vésperas do recesso. A defesa deles alega legítima defesa, dizendo que Gabriel teria pego uma pedra. Vizinhos que presenciaram o crime contestam essa versão dos fatos.

Ataques à memória de Gabriel

Nos primeiros dias após o assassinato, a PMESP já demonstrava postura intimidatória. Viaturas de elite começaram a circular com frequência no local. Em um protesto pacífico por justiça, em abril, policiais foram filmados retirando faixas colocadas por familiares.

Os agentes disseram que, se os panos fossem recolocados, voltariam a removê-los. Em maio, uma nova investida ocorreu. Comerciantes tiveram que baixar as portas enquanto viaturas circulavam. Cartazes que cobravam justiça foram arrancados dos muros novamente.

A mensagem parece ser clara: não haverá espaço para luto público ou cobrança. A memória de Gabriel é combatida com a presença ostensiva do próprio Estado. Para uma família que perdeu um pai, um marido e um filho, a dor é amplificada pela impossibilidade de exigir respostas.

Como tudo aconteceu

Gabriel e sua esposa, Rebeca, grávida de oito meses, voltavam para casa à noite. Ele caminhava alguns metros à frente, após comprar um refrigerante. Dois policiais em uma viatura o abordaram na rua Cosmorama. Um outro homem, que passava pelo local, também foi revistado.

Os dois foram colocados de frente para um muro. O policial Júnior César começou a agredir Gabriel. Rebeca, que se aproximava, repreendeu o agente. Foi quando o segundo PM, Leonardo, direcionou a violência para a mulher grávida, empurrando-a e puxando seus cabelos.

Ao ver a esposa sendo atacada, Gabriel tentou se soltar para ajudá-la. No momento em que se virou, levou um tiro na cabeça. O socorro para ele demorou quarenta minutos. Para os policiais, o reforço chegou em cinco. Rebeca, mesmo grávida, foi levada para uma UPA distante, dificultando o apoio da família.

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