Dois policiais militares vão a júri popular pela morte de um estudante de medicina em São Paulo. O caso, que chocou a cidade no final de 2024, segue agora para uma nova etapa. A decisão judicial pela realização do júri foi publicada nesta segunda-feira, mas ainda sem data marcada.
Os réus são os soldados Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado. Eles são acusados de envolvimento na morte de Marco Aurélio Cardenas Acosta, de 22 anos. O jovem foi baleado durante uma abordagem na Vila Mariana, zona sul da capital paulista. A juíza responsável não decretou a prisão dos dois PMs, que seguem em liberdade.
A família do estudante aguardava por esse desfecho há mais de um ano. O pai de Marco Aurélio, médico Julio Cesar Acosta Navarro, disse que a decisão representa um passo à frente. Ele afirmou sentir uma mistura de alívio e revolta após tanto tempo de espera. A família também espera que os policiais sejam expulsos da corporação.
Os detalhes da noite do crime
Tudo aconteceu na madrugada do dia 20 de novembro de 2024. Marco Aurélio caminhava pela avenida Conselheiro Rodrigues Alves. Ele seguia para um hotel onde estava uma jovem com quem mantinha um relacionamento. Em determinado momento, uma viatura policial com os dois soldados parou próximo a ele.
Segundo as investigações, o estudante deu um tapa no retrovisor do carro. Esse gesto teria desencadeado a reação dos policiais. O soldado Macedo desceu do veículo e começou a perseguir o jovem a pé. Marco Aurélio correu em direção ao hotel, tentando se abrigar no local.
Encurralado em um portão do estabelecimento, o estudante não teve para onde escapar. Foi nesse momento que ele levou um tiro na barriga, disparado pelo policial Macedo. Todo o episódio foi registrado pelas câmeras corporais usadas pelos militares envolvidos na ação.
A longa espera por socorro
Após ser baleado, Marco Aurélio precisou ser levado para o Hospital Ipiranga. O percurso teve cerca de seis quilômetros, um trajeto considerado longo para uma emergência. O detalhe crucial é que o jovem foi atingido em uma rua com uma unidade de saúde próxima e várias outras nas redondezas.
Relatos posteriores mostraram que o hospital destino não tinha condições ideais para atendê-lo. A emergência do local estava superlotada naquele momento. Além disso, o aparelho de tomografia encontrava-se inoperante, o que pode ter dificultado o diagnóstico e o tratamento urgente.
Essa demora e a falta de recursos no local levantaram questões sobre a eficiência do socorro. A sequência de eventos, desde a abordagem até o atendimento médico, é parte central das investigações. A família questiona se uma intervenção mais ágil poderia ter salvado a vida do jovem.
O que dizem as acusações e as defesas
Na sua decisão, a magistrada apontou que o soldado Macedo agiu com ânimo homicida. Ela citou motivo torpe e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Já o soldado Prado é acusado de ter concorrido para o crime, prestando auxílio material e moral ao colega.
A investigação das polícias Civil e Militar concluiu pela existência de homicídio doloso. Isso significa que, no entendimento dos peritos, houve intenção de matar por parte do autor do disparo. O Ministério Público chegou a pedir a prisão do PM, mas o pedido foi negado anteriormente.
A defesa dos policiais informou que respeita a decisão do júri, mas vai recorrer. O advogado argumenta que, na hipótese de legítima defesa, a dúvida sobre os fatos deve beneficiar os acusados. Ele afirma que o próprio texto da decisão judicial menciona a falta de certeza absoluta sobre alguns pontos.
As motivações por trás da tragédia
Um aspecto investigado foi um possível reconhecimento anterior entre o policial e a vítima. Macedo teria associado Marco Aurélio a um morador de uma comunidade na região da Vila Mariana. Essa associação, no entanto, mostrou-se equivocada.
O estudante, na realidade, vivia com a família em um amplo imóvel em outra rua do bairro. A confusão de identidade pode ter sido um elemento determinante na tensão do confronto. A situação evidencia como preconceitos e julgamentos precipitados podem ter consequências fatais.
O caso segue como um exemplo trágico de violência e dos complexos desafios na relação entre segurança pública e sociedade. A expectativa agora é que o júri popular esclareça todas as circunstâncias e determine as responsabilidades sobre esse episódio que interrompeu uma vida jovem.
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