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PMs do Brasil têm mais sargentos do que soldados, mostra pesquisa

Imagina uma empresa onde há mais supervisores do que funcionários na linha de produção. Parece estranho, não é? Pois essa é a realidade atual de muitas polícias militares pelo Brasil. Um estudo recente mostrou que, em vários estados, o número de sargentos já supera o de soldados. Em alguns lugares, a diferença é ainda mais gritante.

Essa inversão na pirâmide hierárquica significa, na prática, menos policiais fazendo patrulhamento nas ruas. Com mais gente em cargos de chefia e menos nas posições de base, a operação fica sobrecarregada. O resultado são batalhões mais inchados no topo e menos efetivos na ponta, onde a população mais precisa.

A situação se repete em doze estados e no Distrito Federal. Nesses lugares, há mais sargentos do que a soma de soldados e cabos. O Rio Grande do Norte é um exemplo extremo, onde os sargentos representam mais de 60% do efetivo. Em São Paulo, por outro lado, essa proporção é bem menor, ficando em torno de 13%.

Como chegamos a esse ponto?

Vários fatores explicam esse desequilíbrio. Um dos principais é o sistema de promoção automática que existe nas corporações. Muitas vezes, esse mecanismo substitui um plano de carreira bem estruturado. Com o tempo, isso vai inflando artificialmente os postos mais altos.

Outro problema crônico é a falta de concursos públicos para recompor as bases. Enquanto as contratações não acontecem, os policiais sobem de patente naturalmente. Ao mesmo tempo, os profissionais estão permanecendo mais tempo na ativa, alongando a expectativa da carreira.

Esses elementos juntos criam uma anomalia estrutural. O estudo alerta para os reflexos na eficiência do policiamento e na saúde financeira dos estados. Manter uma estrutura com tantos cargos superiores é muito mais caro e menos operacional.

O peso da folha de pagamentos

O custo dessa estrutura desbalanceada não para por aí. O Brasil tem hoje um grande número de policiais militares aposentados. Eles representam uma parte significativa da folha de pagamento dos inativos nos estados. Muitos ainda recebem promoções após se aposentarem, aumentando o valor das pensões.

Em média, um agente de segurança recebe cerca de 24% a mais ao passar para a folha de inativos. Para outros servidores públicos, essa diferença é praticamente inexistente. Esse regime previdenciário especial gera um passivo de difícil reversão.

Especialistas veem nisso uma potencial bomba fiscal. Os recursos que poderiam ser investidos em equipamentos, treinamento e novos concursos estão sendo consumidos por essa estrutura. A sustentabilidade financeira das polícias fica comprometida a longo prazo.

O crescimento das guardas municipais

Enquanto isso, outro segmento das forças de segurança está em expansão: as guardas municipais. De 2023 para 2025, o efetivo bancado pelas prefeituras saltou de 95 mil para 107 mil agentes. Esse crescimento foi maior do que o das polícias militar e civil estaduais.

No entanto, ninguém sabe ao certo quantas guardas existem no país. Cada município pode criar a sua, sem uma base nacional que centralize as informações. Estima-se que cerca de 1.384 cidades tenham esse tipo de corporação, mas os dados são imprecisos.

A grande questão é como organizar e regular esse setor. Muitas guardas não possuem um código de conduta claro. A submissão a controles externos é incompleta e a produção de dados sobre suas atividades é quase inexistente. Dar a elas status de polícia municipal, como sugere uma proposta no Congresso, é um debate complexo.

Fiscalização e limites frágeis

A própria lei que rege as guardas municipais vem sendo ignorada. O estudo identificou pelo menos 44 corporações com mais agentes do que o limite legal permite. A cidade de Ipojuca, em Pernambuco, é um caso emblemático. Poderia ter até 296 guardas, mas mantém 417 em atividade.

Esse descumprimento generalizado não é um acidente isolado. Ele revela a frágil estrutura de controle sobre essas organizações. Sem fiscalização adequada, fica difícil garantir a padronização e a qualidade do serviço prestado à população.

Há ainda um risco fiscal. Se as prefeituras adotarem para seus guardas o mesmo regime especial de aposentadoria das polícias estaduais, o problema se repetirá em escala municipal. A conta, no futuro, pode ficar insustentável para os cofres públicos das cidades.

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