Um laudo da Polícia Federal revela detalhes cruciais sobre os momentos que antecederam a queda do avião da Voepass em Vinhedo, São Paulo. O acidente, ocorrido em agosto de 2024, tirou a vida de todas as 62 pessoas a bordo. O documento, com mais de duzentas páginas, mostra que a tripulação já convivia com um problema persistente no sistema que impede a formação de gelo nas asas. A investigação traça uma linha do tempo preocupante, onde falhas conhecidas se repetiram e procedimentos de segurança foram ignorados, culminando na tragédia.
Os dados do gravador de voo permitiram reconstruir a comunicação entre os pilotos. No trecho anterior ao fatal, entre Guarulhos e Cascavel, o comandante já comentava sobre o gelo na aeronave. Ele chegou a dizer, aliviado após o pouso, “Chegamos vivos”. Apesar do tom descontraído, a frase revelava uma consciência do risco. Pouco depois, a mesma aeronave decolou para a rota final. Durante a subida, o primeiro alerta crítico soou, indicando falha no sistema de degelo.
Os pilotos discutiram a rota e a preocupação com áreas de formação de gelo. Em meio aos alertas, o comandante comparou o avião a um carro antigo, num tom de ironia. O alerta técnico, porém, era grave. Ele sinalizava uma falha no sistema pneumático de degelo, e o manual do fabricante é claro: a tripulação deve sair imediatamente da região com gelo. Os dados mostram que esse procedimento não foi seguido. A decisão de continuar o voo se mostraria fatal mais adiante.
A sequência fatal de eventos
Quase uma hora depois, na aproximação de São Paulo, a situação se agravou. O copiloto relatou acúmulo de gelo e tentou acionar o sistema novamente. A resposta do comandante foi direta: “Essa bosta não tá funcionando, né?”. Nos segundos seguintes, a aeronave foi inundada por alertas. Computadores de bordo indicaram degradação de performance, aumento anormal de velocidade e, por fim, o alarme de estol.
O estol é a perda súbita de sustentação, que pode ocorrer por excesso de gelo nas asas. Em menos de um minuto, o avião entrou em parafuso. O sistema automático chegou a gritar “Pull up, pull up”, alerta derradeiro de colisão iminente com o solo. Não houve tempo para uma recuperação. A aeronave caiu no quintal de uma casa em Vinhedo, num dos acidentes mais graves da aviação brasileira.
A perícia identificou uma janela crítica de cerca de vinte segundos entre o alerta de velocidade e o início do parafuso. Nesse breve intervalo, ainda havia uma chance remota de intervenção. A análise mostrou, contudo, que os procedimentos de emergência para falha no degelo não foram executados no momento correto. A combinação de fatores técnicos e humanos selou o destino do voo.
Falhas repetidas e a cultura do não registro
A investigação foi fundo no histórico da aeronave. Os peritos encontraram o mesmo alerta de falha registrado no computador de bordo não só no voo do acidente, mas em três outros voos anteriores. A prática das tripulações era sempre a mesma: desligar e religar o sistema, um “reset” na tentativa de fazê-lo voltar a funcionar. No voo anterior ao acidente, essa tentativa foi feita pelo menos cinco vezes.
Esse hábito revela um problema sistêmico. O comandante decolou para uma rota com previsão oficial de formação de gelo, mesmo ciente das falhas intermitentes. O laudo é enfático ao apontar a ausência de registro formal dessas ocorrências. Se as falhas fossem devidamente anotadas nos relatórios técnicos, a aeronave não poderia ter sido liberada para voar.
A lista de equipamentos mínimos proíbe operações em condições de gelo com o sistema de degelo inoperante. O problema, portanto, permaneceu oculto. As discrepâncias repetitivas não foram resolvidas, e as barreiras de segurança falharam uma após a outra. A investigação também encontrou outro desvio: o avião decolou com o limpador de para-brisa quebrado, contra as regras, já que havia previsão de chuva no destino.
O desfecho e os próximos passos
O avião, um modelo ATR 72-500, realizava o voo 2283 de Cascavel para Guarulhos. A queda no condomínio em Vinhedo não feriu moradores do local, mas todas as pessoas a bordo morreram. A Polícia Federal conclui que a tragédia resultou de uma combinação perigosa: falhas técnicas recorrentes, operação em área de severa formação de gelo, execução inadequada dos procedimentos e múltiplas falhas nas barreiras de segurança.
Enquanto o Cenipa foca em recomendações para evitar novos acidentes, a perícia da PF busca responsabilização criminal. Advogados das famílias esperam que o inquérito, que deve ser concluído em breve, indique responsáveis. Se isso acontecer, será o primeiro caso de um grande acidente aéreo comercial no Brasil a resultar em indiciamentos criminais.
Além do processo criminal, as famílias das vítimas preparam uma ação coletiva por danos morais. Essas ações civis buscam a responsabilização de empresas e pessoas que possam ter contribuído para o ocorrido. O caminho judicial, agora, visa responder às perguntas que restaram e buscar justiça para uma perda irreparável.
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