Uma investigação da Polícia Federal está desvendando uma complexa rede de propagação de notícias falsas nas redes sociais. O alvo são perfis de grandes influenciadores e sites que espalharam desinformação sobre o sistema financeiro e autoridades. No centro dessa teia, está uma agência de marketing digital pouco conhecida do grande público.
A Qualimedia Digital Inteligence é uma empresa de planejamento estratégico com clientes de peso. Ela surge nos autos como peça fundamental na estrutura que viabilizou os ataques. A investigação aponta que a Qualimedia é sócia da agência Eleven, especializada em gerenciar carreiras de digital influencers.
A Eleven, por sua vez, administrava ou subcontratava uma série de perfis e portais de grande alcance. Nomes como @alfinetei, @futrikei e sites como Portal Babados faziam parte desse ecossistema. Juntos, esses canais somam mais de setenta milhões de seguidores, um poder de fogo considerável na internet brasileira.
A Estratégia e os Alvos dos Ataques
Os investigadores mapearam uma ação coordenada no final do ano passado. Entre os dias 28 e 29 de dezembro, essa rede de perfis e sites engajou-se no chamado "Projeto DV". O alvo era a liquidação do Banco Master, processo conduzido pelo Banco Central.
As publicações criticavam a velocidade da ação e atacavam diretamente autoridades. O diretor de normas do BC, Renato Gomes, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, foram alvos de difamação. O banqueiro André Esteves foi apontado, sem provas, como idealizador da liquidação.
Paralelamente, a mesma rede era usada para elogios a figuras políticas alinhadas à extrema-direita. Publicações destacavam supostas qualidades do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ações sobre IPVA, obras do Rodoanel e cobranças à Enel eram enaltecidas de forma coordenada.
Os Interesses Políticos e a Máquina de Propaganda
A investigação revela que a máquina de propaganda digital servia a interesses políticos específicos. Os perfis turbinavam críticas do deputado Nikolas Ferreira à Caixa Econômica Federal. A cobertura da "caminhada da insensatez" do parlamentar também foi impulsionada por essa rede.
O objetivo claro era clamar por liberdade ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe. No mesmo período, a fauna de influenciadores trabalhava a favor da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à presidência. Era um esforço orquestrado para influenciar a opinião pública.
O papel da Qualimedia nesse mercado vai além. A empresa atua como chanceladora de audiência para portais em negociações com governos. Suas auditorias determinam o volume de recursos que os veículos recebem em campanhas públicas. Muitas agências que trabalham com o governo federal já utilizaram seus serviços.
Quem Bancava a Operação de Desinformação
O capítulo financeiro é crucial. Associados à Eleven aparecem nomes como Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, e seu filho, Lucas Sanchez. Eles, por sua vez, têm ligações com o publicitário Felipe Filipelli, dono da agência Banca Digital.
A Banca Digital contratou a empresa Lorena Magazine para bancar publicações elogiosas a Tarcísio. Os recursos financiaram a miríade de perfis descrita na investigação. O esquema revela como o dinheiro fluía para pagar pela narrativa favorável.
Dois empresários mineiros são peças centrais nesse quebra-cabeça: Flávio Carneiro e Antônio Carlos Freixo. Carneiro é dono do site PlatôBR e sócio do Brazil Journal. Ele também admitiu possuir parte do site de fofocas Leo Dias. Juntos, eles montaram uma sociedade de fins específicos chamada FOONE.
As Conexões Perigosas e as Apostas Online
A sociedade FOONE unia empresas de mídia num único conglomerado digital. O objetivo era partilhar captações publicitárias públicas e privadas. Investigadores suspeitam que havia participação oculta de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, através de um fundo de investimentos.
O projeto, segundo Flávio Carneiro, não deu certo e foi desfeito ainda em 2025. Mas a suspeita de que recursos de Vorcaro financiaram os ataques persiste. Caso a PF prove essa conexão, as consequências para o ex-banqueiro podem ser graves.
O ecossistema digital identificado inclui cinco agências de marketing e três empresas de apostas online. Elas viabilizariam o pagamento das postagens. Entre as agências, estão MiThi, Portal GroupBR e Mynd8, todas agora sob investigação.
As casas de aposta 7GamesBet, VaiDeBet e ZeroUm.Bet completam o esquema. A primeira é administrada por um operador de Goiás estreitamente ligado a figuras como o senador Ciro Nogueira e o cantor Gustavo Lima. O próprio cantor é associado ao controle da VaiDeBet nos autos.
As Possíveis Consequências para os Envolvidos
Caso se comprove o financiamento das campanhas de difamação, Daniel Vorcaro pode voltar à prisão. Obstruir a Justiça com disseminação de mentiras é crime inafiançável. A prisão preventiva em regime fechado é uma possibilidade real para o ex-banqueiro.
A investigação busca estabelecer o elo financeiro definitivo entre Vorcaro, o fundo Duke e as postagens pagas. Criar confusão pública sobre um fato grave como a liquidação de um banco tem alto custo legal. As penas para quem coordena esse tipo de operação são severas.
O caso expõe a vulnerabilidade do debate público às manipulações pagas. Mostra como redes de influenciadores podem ser cooptadas para guerras narrativas. A PF segue no trabalho de desmontar cada camada dessa complexa operação de desinformação.
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