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PF investiga aparelho da Lava Jato suspeito de grampos ilegais, diz jornal

Você sabia que um simples gravador de ramal telefônico está no centro de uma nova investigação sobre a Lava Jato? A Polícia Federal encaminhou um aparelho para perícia. O objetivo é descobrir se ele foi usado em escutas ilegais durante os anos mais intensos da operação.

O equipamento, um modelo específico, ficou ligado de 2016 a 2020. Nesse período, registrou a impressionante marca de cerca de trinta mil ligações. Agora, a justiça quer saber como esse sistema foi operado e quem teve acesso ao material.

A análise foi determinada pelo Superior Tribunal de Justiça. Ela reverteu um entendimento anterior que recomendava o arquivamento do caso. O foco não é o conteúdo das conversas, mas os metadados e registros de uso do aparelho.

O que a perícia vai investigar

O trabalho dos peritos será bastante técnico e restrito. Eles não podem ouvir o áudio das gravações. A ordem judicial é clara: devem analisar apenas os dados sobre o uso do sistema. Isso inclui informações como datas, horários e duração das chamadas.

O principal é identificar quem operou o equipamento e quando. Outro ponto crucial é verificar se arquivos foram deletados ou se cópias foram salvas em nuvem. A suspeita é que o gravador, acoplado aos telefones da força-tarefa, possa ter capturado conversas de forma indiscriminada.

Isso significa que advogados, testemunhas e até outros procuradores podem ter sido gravados sem saber. O sistema telefônico do escritório de investigações teria se transformado, na prática, em um mecanismo de vigilância sem qualquer controle judicial.

O contexto por trás do gravador

O período de funcionamento do aparelho coincide com momentos-chave da história recente. Ele esteve ativo desde o impeachment de Dilma Rousseff, passando pela divulgação da Lista de Fachin e pela prisão de Lula, até a eleição de Bolsonaro. Sua desativação, em 2020, ocorreu junto com o enfraquecimento da Lava Jato.

Isso aconteceu após o escândalo do Vaza Jato e durante o desmonte da força-tarefa promovido pela gestão de Augusto Aras na PGR. O equipamento ficou guardado em Brasília e sua entrega à polícia enfrentou resistências. Só foi liberado após ameaça de busca e apreensão.

O ex-coordenador da operação, Deltan Dallagnol, neta qualquer irregularidade. Ele afirma que o gravador foi uma medida de segurança institucional. Na época, os procuradores enfrentavam ameaças de morte devido ao trabalho contra crimes de colarinho branco.

Os desafios e o alcance da investigação

Todo o processo enfrentou uma série de obstáculos burocráticos. A definição sobre qual corte teria competência para julgar o caso atrasou a perícia por cerca de um ano e meio. Só recentemente o STJ assumiu a condução completa da investigação.

Enquanto isso, outra investigação no Supremo Tribunal Federal busca apurar suspeitas de monitoramento ilegal de autoridades com foro privilegiado. O inquérito do STJ, porém, tem um escopo mais amplo. Ele olha para o uso geral do equipamento dentro do Ministério Público.

O foco principal é apurar possíveis crimes de interceptação telefônica ilegal. A pena para esse tipo de conduta pode variar de dois a quatro anos de detenção. O inquérito analisa a eventual responsabilidade de Dallagnol e de outros integrantes da força-tarefa de Curitiba.

As justificativas e os próximos passos

Em nota oficial, Deltan Dallagnol reforçou a tese da segurança. Ele disse que o equipamento foi adquirido de forma institucional pela então procuradora-chefe. O contexto de ameaças à vida dos procuradores e suas famílias justificaria a medida.

Segundo sua defesa, nenhuma gravação teria sido acessada, escutada ou usada de forma irregular. O aparato serviria apenas como um registro interno para proteção da equipe. A perícia agora vai checar exatamente essa alegação contra as suspeitas.

Dados preliminares já indicam que, das trinta mil gravações, pelo menos 341 teriam sido acessadas. A investigação também levanta a suspeita de que escutas ativas foram feitas sem o conhecimento das pessoas que usavam as linhas telefônicas. O trabalho dos peritos é separar o que era protocolo de segurança do que pode ter sido excesso.

A conclusão desse laudo pericial será mais um capítulo no longo e complexo desdobramento da Operação Lava Jato. As respostas estão guardadas nos dados técnicos de um pequeno aparelho que testemunhou anos de tensão política e judicial. O que ele vai revelar é uma espera que move agora os holofotes para os bastidores daquela investigação histórica.

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