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PF indicia 16 em investigação de queda do avião da Voepass que deixou 62 mortos

A Polícia Federal concluiu seu inquérito sobre a queda do avião da Voepass que tirou 62 vidas em agosto de 2024. O relatório apontou indícios de responsabilidade de 16 pessoas, incluindo o presidente da empresa e seu ex-diretor de operações. A investigação policial agora segue para o Ministério Público, que decidirá se os acusados irão a julgamento.

As acusações são graves: quinze dos indiciados respondem por atentado contra a segurança do transporte aéreo. Esse crime pode levar a até doze anos de prisão. O indiciamento significa que a polícia reuniu provas consideradas suficientes para sustentar uma possível ação judicial.

O processo agora entra em uma nova fase. Cabe aos promotores analisar todo o material e definir se apresentam uma denúncia formal. Se a Justiça aceitar a denúncia, tem início o processo penal, com a apresentação de defesas e alegações de ambas as partes perante um juiz.

As conclusões da perícia técnica

O laudo pericial, com duzentas páginas, analisou dados de 136 voos da aeronave ATR 72-500. A investigação começou pelos registros do gravador de dados de bordo. O primeiro voo analisado ocorreu em junho de 2024, semanas antes da tragédia em agosto.

Chama a atenção uma série de voos realizados dias antes do acidente. Em 7 de agosto, por exemplo, foram registradas sucessivas tentativas de ligar e desligar o sistema de degelo. Os perícios interpretaram essas ações como tentativas de resetar o equipamento com defeito.

Em nove outros voos, o sistema anti-gelo foi acionado por intervalos curtíssimos, desligando em questão de segundos ou minutos. O problema crucial é que nenhuma dessas falhas foi anotada no livro técnico da aeronave. Esse registro teria impedido legalmente o avião de decolar.

Falhas documentais e decisões operacionais

Os peritos encontraram uma ordem de serviço de julho de 2024 registrando a remoção de uma válvula do sistema de degelo. Não havia, porém, nenhum documento comprovando a reinstalação desse componente essencial. Essa falha na documentação de manutenção é um ponto central.

A transcrição das conversas na cabine revela que a própria tripulação do voo fatal já havia enfrentado problemas. No trajeto anterior, de Guarulhos para Cascavel, eles lidaram com formação de gelo e alertas de falha no sistema. Tinham conhecimento direto da intermitência do equipamento.

Diante desse conhecimento e da previsão de gelo na rota de retorno, a perícia entende que o comandante deveria ter recusado a autorização para a decolagem. Se as falhas anteriores tivessem sido formalmente reportadas, a aeronave estaria impedida de voar naquelas condições climáticas.

A sequência final do acidente

O relatório descreve uma cadeia de eventos iniciada pela operação em condições severas de formação de gelo. A situação superou a capacidade de proteção disponível naquele momento. A aeronave, ainda com sua estrutura intacta, começou a perder a estabilidade e o controle.

Ela saiu do chamado envelope de voo, com um estol e um rolamento descoordenado. Nessas circunstâncias, tornou-se impossível recuperar o controle dada a altitude e a energia restantes. A janela de tempo para uma ação corretiva era extremamente curta.

Os pilotos receberam sucessivos alertas de degradação de desempenho e aumento de velocidade. A perícia conclui que eles não executaram, no tempo adequado, os procedimentos de emergência previstos nos manuais. Isso incluía abandonar a área de gelo imediatamente e declarar situação de emergência.

A posição da empresa aérea

Procurada para se manifestar sobre o indiciamento, a Voepass não respondeu aos questionamentos. Em comunicado anterior, a empresa afirmou que a tripulação do voo era experiente, capacitada e devidamente certificada. Destacou que não havia registros prévios que impedissem sua atuação.

A companhia também ressaltou sua trajetória de mais de três décadas na aviação brasileira. Afirmou sempre ter adotado procedimentos sérios de segurança e capacitação. Disse nunca ter enfrentado uma situação como essa em sua história operacional.

A Voepass declarou solidariedade às famílias das vítimas desde o momento do acidente. Mencionou compartilhar uma dor que permanece viva em sua memória. O relatório final do Cenipa, divulgado em julho, já havia concluído que a aeronave não deveria ter decolado naquele dia.

Fatores sistêmicos apontados

A investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos mapeou dezenove fatores contribuintes. A análise vai além das falhas técnicas e humanas imediatas. Ela aponta para uma cultura organizacional problemática dentro da empresa.

Essa cultura, segundo o relatório, priorizava a continuidade das operações em detrimento da segurança. A pressão para manter os voos funcionando teria criado um ambiente onde problemas eram ignorados ou não comunicados formalmente.

A combinação fatal incluiu defeitos na aeronave, erros de procedimento dos pilotos e falhas gerenciais. O acidente não foi resultado de um único evento, mas de uma sucessão de falhas que se somaram. Cada elo dessa cadeia, isoladamente, poderia ter sido quebrado para evitar o desfecho trágico.

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