A Polícia Federal identificou movimentações financeiras que chamam a atenção. Assessores ligados aos deputados Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy movimentaram mais de 27 milhões de reais em seis anos. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou uma investigação mais profunda para entender a origem desses valores.
Os agentes suspeitam de desvio de recursos da cota parlamentar. O esquema também pode envolver lavagem de dinheiro. A investigação se concentra em servidores comissionados e no entorno político dos parlamentares.
As movimentações analisadas geraram 14 comunicações de operações atípicas. Elas ocorreram entre fevereiro de 2018 e junho de 2020. Três características principais dessas transações levantaram suspeitas.
O padrão das movimentações
A primeira característica é a incompatibilidade dos valores com a renda conhecida dos envolvidos. Um assessor, por exemplo, movimentou sozinho mais de 11 milhões de reais. Outras três pessoas somaram movimentações de cerca de 16 milhões.
A origem desse dinheiro não foi identificada pelas autoridades. São valores que não batem com os salários ou ganhos declarados. Essa discrepância é o ponto de partida para desconfiar de atividade ilícita.
A segunda característica é o fracionamento de saques e depósitos. Muitas operações eram feitas em valores justamente abaixo de dez mil reais. Esse é um limite comum para transações que exigem menos burocracia nos bancos.
A prática pode ser um indício de tentativa de evitar a fiscalização automática. Esse método, conhecido como "structuring", é um alerta clássico para crimes financeiros. Ele busca diluir grandes quantias em partes menores e menos perceptíveis.
A terceira característica é a ligação clara com os gabinetes dos dois deputados. Os principais nomes nas transações são servidores comissionados da Câmara. Eles trabalhavam diretamente para Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy.
Essa conexão funcional foi crucial para o caso chegar ao STF. A justificativa foi a necessidade de uma investigação coordenada. O objetivo é evitar que provas se percam ou que suspeitos sejam alertados.
Os mecanismos do suposto esquema
A investigação aponta a cota parlamentar como peça central. Suspeita-se que contratos de locação de veículos, pagos com dinheiro público, serviram de fachada. O dinheiro saía do gabinete para uma empresa e depois retornava para as mãos de assessores.
Os reembolsos feitos a essa empresa, apenas pelos gabinetes dos dois deputados, somam 430 mil reais. A empresa em questão apresenta várias irregularidades. Ela mudou de nome, não tinha atividade no endereço declarado e sua estrutura era pequena para o volume de recursos.
A empresa tinha uma frota de veículos muito menor que a necessária para justificar os contratos. Essa discrepância entre a estrutura real e os serviços faturados é um forte indício de fraude. O esquema parecia usar uma operação fantasma como canal para desviar verbas.
As conversas extraídas de aplicativos de mensagem reforçam a tese. Nelas, operadores discutem pagamentos feitos parte por transferência e parte "por fora", em dinheiro. Há ainda menções à destinação de valores ao "Deputado", o que motivou o aprofundamento das buscas.
Os próximos passos da investigação
Diante das evidências, o ministro Flávio Dino autorizou uma série de medidas. Foram determinadas buscas e apreensões em endereços ligados aos investigados. A polícia pode recolher celulares, computadores e acessar contas em nuvem para extrair informações.
Foi autorizada também a quebra do sigilo bancário e fiscal de todos os envolvidos. O período coberto vai de maio de 2018 a dezembro de 2024. A PF pode requisitar extratos, documentos e informações de compliance das instituições financeiras diretamente.
A decisão estabelece um prazo de 45 dias para a execução coordenada dessas diligências. As informações poderão ser compartilhadas com a Receita Federal para análise fiscal. O compartilhamento imediato com a Advocacia-Geral da União foi negado por enquanto.
A prioridade, no momento, é a apuração criminal. Após a conclusão dessas etapas, o sigilo da decisão judicial será levantado. O caso segue em andamento, com foco na coleta de provas e na responsabilização dos envolvidos.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.