PESQUISA: Contra crime, maioria dos brasileiros aceita punir até inocente; mais piedosos são os ateus
Uma pesquisa recente, que ouviu quase dez mil brasileiros, trouxe à tona uma tensão que vive em nosso cotidiano. De um lado, um desejo forte por ordem e justiça rápida. De outro, a preocupação com princípios éticos que devem guiar qualquer sociedade. Os números revelam um sentimento punitivista enraizado, mas também mostram limites claros quando a vida entra em jogo.
O estudo apresentou um dilema difícil às pessoas. Imagine que dez indivíduos são acusados de crimes graves, mas um deles é comprovadamente inocente. A questão é: punir todos para garantir que os nove culpados paguem ou não punir ninguém para proteger o inocente? Quarenta e dois por cento optaram por punir o grupo inteiro. Apenas quinze por cento escolheram a segunda opção.
Para esse grande grupo, a impunidade parece ser o pior dos males. Frases como “o crime tem que ser punido” ou “noventa por cento de acerto é melhor” justificam o erro. Muitos ainda transferem o ônus da prova para o inocente, dizendo que caberia a ele provar sua inocência. Há até quem questione por que ele estava “no meio de bandidos”.
No entanto, o cenário muda radicalmente quando a punição proposta é a pena de morte. O apoio à execução coletiva, incluindo uma pessoa inocente, despenca para dezessete por cento. A maioria, cinquenta e um por cento, recusa a pena capital para evitar um erro irreversível. Curiosamente, os que não acreditam em Deus foram os mais contrários.
Entre os ateus, sessenta e dois por cento rejeitaram a execução. O percentual foi de cinquenta e dois por cento entre católicos e sessenta por cento entre evangélicos. Para esses, nenhuma justificativa é aceitável para condenar um inocente. A solução, defendem, está em um sistema de justiça mais preciso, não em castigos coletivos.
Assaltos juvenis: entre o problema social e a resposta punitiva
A visão punitivista também aparece em situações do dia a dia. A pesquisa perguntou sobre assaltos a celulares cometidos por jovens armados. Para trinta e dois por cento, trata-se de um crime grave que deve ser reprimido com violência, até a morte se necessário. Mais da metade vê o ato como reflexo de um problema social.
No entanto, mesmo esses cinquenta e três por cento que reconhecem a causa social acreditam em punição rigorosa. Somando os dois grupos, oitenta e cinco por cento são favoráveis a penas severas para jovens. Apenas uma minoria de doze por cento enxerga a solução em políticas sociais que ataquem as raízes do problema.
Para essa minoria, ninguém rouba por hobby. A combinação de pobreza extrema, estímulo ao consumo e abandono estatal cria o terreno para a criminalidade. Já a maioria vê o ato como um “desvio de conduta” a ser corrigido. Para eles, entender o contexto social não significa tolerar o crime.
“Bandido bom é bandido…” como a sociedade completa a frase?
Os pesquisadores também testaram o eco de frases de efeito comuns no debate público. A expressão “bandido bom é bandido morto” foi apoiada por trinta e um por cento dos entrevistados. Vinte e oito por cento concordaram com “bandido bom é bandido atendido pelo Estado para ser ressocializado”.
A opção mais escolhida, com trinta e oito por cento, foi “bandido bom é bandido preso”. Isso indica uma preferência pelo caminho institucional, mesmo que severo. Somando os que preferem a prisão ou a ressocialização, temos sessenta e seis por cento das respostas. O extremismo verbal não traduz a totalidade do pensamento.
Mais uma vez, a religião mostrou influência. Ateus lideraram a adesão à ideia de ressocialização pelo Estado, com cinquenta e dois por cento. Entre católicos e evangélicos, o apoio a essa visão foi de apenas vinte e um e vinte e dois por cento, respectivamente. Os ateus também foram os que menos apoiaram a frase “bandido bom é bandido morto”.
Os resultados sugerem um quadro complexo. Existe um cansaço com métodos progressistas no campo da segurança, sim. Mas também há uma racionalidade que prepondera. As pessoas entendem, em alguma medida, as causas da insegurança. Elas só não concordam sobre o melhor caminho para enfrentá-la, oscilando entre a severidade e a busca por justiça real.
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