A recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na invasão do território e na remoção do chefe de Estado, fez muito mais do que abalar a política regional. O episódio colocou uma lupa sobre uma crise profunda e estrutural nas Nações Unidas. Com os detalhes da operação confirmados, especialistas começam a enxergar ali um marco simbólico. Esse evento sinaliza um esvaziamento dramático do sistema multilateral que moldou o mundo após a Segunda Guerra.
A ação demonstrou, na prática, que a ONU parece ter perdido sua capacidade de conter o uso da força por grandes potências. Não houve mediação internacional séria antes do conflito, nem um mandato legal que justificasse a ofensiva. A ausência de sanções imediatas e concretas fala mais alto. Tudo isso reforça uma percepção antiga, porém agora mais evidente: as decisões estratégicas globais continuam sendo tomadas fora dos fóruns multilaterais, especialmente quando envolvem recursos, segurança ou influência.
O cerne dessa discussão está em um dos pilares da carta que fundou a ONU. O artigo 2º, inciso 4, proíbe explicitamente o uso da força contra a independência ou a integridade territorial de qualquer país. Esse princípio foi criado justamente para evitar os horrores das intervenções unilaterais do passado. A operação na Venezuela, ao ignorar essa regra fundamental sem consequências imediatas da organização, trouxe o debate de volta com força total. O que vale, afinal, o direito internacional quando um ator poderoso decide não cumpri-lo?
A seletividade das regras globais
Especialistas apontam que o caso venezuelano é a expressão mais recente de uma tendência preocupante. As normas internacionais universais permanecem formalmente em vigor, mas sua aplicação tornou-se seletiva. A observância dessas regras agora parece depender diretamente do peso político, econômico e militar de cada país envolvido. Em outras palavras, tratados e resoluções deixam de ser limites objetivos. Eles passam a ser relativizados de acordo com a correlação de forças do momento.
Para Ana Garcia, professora de Relações Internacionais, a ofensiva se insere em um contexto de crise do multilateralismo que vai além da ONU. Ela reflete uma mudança clara na postura dos Estados Unidos perante as instituições globais. Nos últimos anos, o país se retirou de acordos climáticos, abandonou organizações internacionais na área da saúde e reduziu sua participação em fóruns multilaterais. A ação na Venezuela, portanto, não é um fato isolado. Ela reforça um movimento mais amplo de retorno ao unilateralismo, que agora se manifesta de forma mais aberta e menos disfarçada.
A crise atual também escancara a incapacidade da ONU de produzir respostas coletivas eficazes. A professora cita a inoperância da organização durante a pandemia e a crise humanitária em Gaza como sinais claros desse esvaziamento progressivo. A incapacidade de ações coletivas para conter graves violações já era evidente. Agora, vemos um unilateralismo que age sem precisar sequer de justificativas amplas perante a comunidade internacional. Isso aprofunda ainda mais a irrelevância prática da organização.
Da era dos tratados para a lei do mais forte
A professora Regiane Bressan, especialista em relações internacionais, enxerga o episódio como uma ruptura profunda. A ofensiva ignorou solenemente o Conselho de Segurança da ONU, o órgão central projetado para autorizar tais ações. Quando uma superpotência decide capturar um chefe de Estado e intervir militarmente sem qualquer respaldo jurídico internacional, o multilateralismo deixa de ser uma prática real. Ele se transforma em uma fachada, um simulacro. A ONU se torna irrelevante porque não consegue proteger a soberania básica de um de seus países-membros.
Segundo essa análise, o precedente aberto é particularmente grave porque relativiza a soberania não só da Venezuela, mas de todo o Sul Global. Saímos de uma era baseada em tratados e acordos para entrar em uma era regida pela lei dos mais fortes. As instituições criadas em 1945 passam a ser tratadas como meras sugestões, que podem ser descartadas conforme a conveniência. É uma doutrina mais agressiva, que não se limita a afastar rivais, mas abre espaço para a gestão direta de recursos e governos alheios.
Uma crítica ainda mais contundente vem de analistas que veem a ONU como uma instituição esvaziada há décadas. Para eles, a ofensiva contra a Venezuela apenas explicita uma falência antiga. O fato de apenas cinco países deterem o poder de veto no Conselho de Segurança sempre demonstrou que a organização não é, de fato, das nações unidas. Ela seria, na prática, um instrumento para legitimar o poder desses cinco membros permanentes. Episódios como a invasão do Iraque, os bombardeios em Gaza e a guerra na Síria já haviam mostrado esse padrão de inação.
Lições de um precedente perigoso
O caso da Venezuela reavivou imediatamente comparações com a invasão americana do Panamá, em 1989. Na ocasião, tropas dos EUA capturaram o líder Manuel Noriega. O método é assustadoramente similar: intervenção militar seguida da remoção forçada do chefe de Estado. A diferença crucial está no contexto internacional. Em 1989, ainda havia uma expectativa de fortalecimento das instituições multilaterais com o fim da Guerra Fria. A ONU era vista como peça central de um sistema capaz de regular conflitos.
Hoje, esse horizonte parece ter desaparecido. A operação na Venezuela é tratada por muitos atores não como uma exceção condenável, mas como um instrumento legítimo de reorganização geopolítica. No Conselho de Segurança, a resposta foi paralisada pela dinâmica do veto entre os membros permanentes. O impasse resultou apenas em pronunciamentos formais e disputas diplomáticas previsíveis, reforçando a sensação de paralisia do principal órgão responsável pela paz mundial.
Analistas enxergam nisso a consolidação de uma nova ordem internacional, baseada em áreas de influência direta das superpotências. Nesse modelo, elas atuam de forma unilateral em regiões consideradas estratégicas, à margem de qualquer mecanismo coletivo. O multilateralismo perde sua centralidade, e o direito internacional passa a ocupar um papel secundário, subordinado à força militar e à pressão econômica. A crise da ONU, portanto, não é apenas burocrática.
Ela expõe a fragilidade política da organização diante de violações flagrantes de seus princípios fundadores. Incapaz de prevenir conflitos, responsabilizar autores ou impor limites ao uso da força, a instituição segue formalmente ativa, mas com sua eficácia cada vez mais questionada. O impacto dessa erosão é global e perigoso. A substituição de uma ordem baseada em regras por outra fundada na pura força amplia a insegurança internacional.
Ela enfraquece todos os mecanismos de solução pacífica de controvérsias e pode estimular respostas unilaterais em várias regiões do mundo. A normalização desse padrão reduz a previsibilidade das relações entre países e aumenta, concretamente, o risco de novos conflitos. O dia seguinte à invasão da Venezuela simboliza mais do que uma crise regional em curso. Ele pode representar o amanhecer de um mundo mais instável e perigoso, onde as normas perdem força, as instituições perdem autoridade e a lógica crua do poder volta a ditar as regras do jogo global.
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