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‘Papel de um bom juiz não é ser estrela’, diz ministro André Mendonça

Num cenário onde o noticiário político frequentemente se assemelha a um espetáculo, surge uma reflexão sobre o papel daqueles que vestem a toga. A fala recente de um ministro do Supremo Tribunal Federal vai na contramão dessa tendência, defendendo um exercício judicial mais discreto e focado no essencial. A ideia central é simples: a missão de um magistrado deve orbitar em torno da justiça, não dos holofotes.

Em um evento na Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro, o ministro André Mendonça compartilhou sua visão sobre a função. Para ele, o grande desafio está em trilhar um caminho íntegro em cada processo. Isso significa buscar a decisão correta, fundamentada nas razões adequadas, movido apenas pelo dever de agir com retidão. Não se trata, em sua perspectiva, de cultivar uma imagem pública de salvador ou de figura excepcional.

A declaração mais emblemática foi direta: o papel de um bom juiz não é ser estrela. Essa frase sintetiza um posicionamento claro contra o protagonismo judicial. Mendonça enfatizou a expectativa humilde de apenas tentar fazer o certo, pelos motivos certos. É uma defesa da discrição e da austeridade como virtudes fundamentais para quem ocupa um cargo de tamanha responsabilidade.

O contexto por trás do discurso

A fala não ocorreu no vácuo. Observadores do Supremo têm notado que Mendonça atua como um contraponto a outros estilos mais visíveis dentro da corte. Nos últimos meses, ele se envolveu em debates públicos com o ministro Alexandre de Moraes, figura conhecida por um perfil mais intervencionista em processos de grande repercussão. Essa diferença de posturas ilustra um tensionamento interno sobre como o Judiciário deve se portar.

Essa posição ganha contornos práticos em investigações sensíveis que estão sob sua relatoria. Dois casos em particular chamam a atenção: as fraudes no Banco Master e o inquérito do INSS que envolve um dos filhos do presidente Lula. O andamento desses processos é acompanhado de perto pela classe política, especialmente com a proximidade das eleições municipais.

No Congresso, parlamentares do centrão avaliam que Mendonça terá um papel decisivo no cenário eleitoral de outubro. A forma como conduzir esses inquéritos pode influenciar o clima político nacional. A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, determinada por ele, já demonstrou que suas decisões têm peso concreto e geram impacto imediato.

A prática de um judiciário sem estrelismo

Mas como se traduz, na prática, a postura defendida pelo ministro? Em primeiro lugar, implica em evitar declarações midiáticas desnecessárias e focar nos autos do processo. Significa resistir à tentação de usar o cargo como plataforma para opiniões pessoais ou para construir uma narrativa pública. O trabalho deve falar por si, através das sentenças e dos votos fundamentados.

Um juiz discreto não é um juiz omisso ou fraco. Pelo contrário, exige firmeza para tomar decisões difíceis longe do clamor popular. Requer a coragem de seguir a lei mesmo quando o caminho é impopular. A austeridade mencionada por Mendonça refere-se a essa frieza técnica, a essa capacidade de se guiar pelos fatos e pelas normas, e não por pressões ou desejos de agradar.

No fim das contas, a proposta é um retorno a bases talvez menos glamourosas, mas essenciais para a credibilidade da Justiça. É a imagem do magistrado como um servidor público dedicado, e não como uma celebridade. Numa época de polarizações, essa defesa da discrição judicial se apresenta como um princípio a ser observado, com reflexos reais na vida das instituições e da sociedade.

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