Imaginar o que um alienígena comeria pode parecer uma brincadeira. Afinal, não temos nenhuma prova de que eles existam ou já tenham nos visitado. As agências espaciais e militares não encontraram evidências verificáveis de tecnologia extraterrestre. Ainda assim, pensar nisso nos leva a reflexões curiosas sobre a própria vida.
A experiência humana no espaço é um bom ponto de partida. Quando saímos do nosso planeta, nosso corpo muda. Na microgravidade, o apetite diminui e o paladar fica embotado, como se estivéssemos sempre resfriados. Ossos e músculos perdem massa rapidamente.
Para compensar, astronautas precisam de exercícios intensos diários. A comida também vira um desafio de engenharia. Migalhas flutuantes são um perigo, então tudo deve ser compacto e não farelar. Em missões longas, a comida vira pura engenharia de sobrevivência.
O básico da biologia alienígena
Falar em "alienígena" não é falar de uma espécie específica. Na cultura popular, temos os homenzinhos verdes, os reptilianos ou os humanoides altos. São invenções do folclore, não animais catalogados pela ciência. Perguntar o que eles comeriam é como perguntar a dieta de um dragão.
A biologia, porém, oferece algumas ferramentas para estimativas. Em animais terrestres, existe uma relação conhecida: quanto maior o bicho, menos energia ele gasta por quilo do seu corpo. Um elefante tem um motor grande e econômico. Um rato, minúsculo e voraz.
Essa regra permite cálculos aproximados. Um ser hipotético de 70 quilos, com fisiologia semelhante à nossa, precisaria de cerca de 1.700 calorias por dia só para funções básicas, como respirar. Mas isso é só o ponto de partida, sem contar o gasto de se mover ou pensar.
Três visitantes clássicos
Vamos aplicar isso a três figuras clássicas da ficção. A primeira é o homenzinho cinza, magro e de cabeça grande. Se ele pesasse 30 quilos e fosse de sangue quente, seu cérebro seria um órgão caríssimo de manter. Sua dieta precisaria ser densa em energia e quase contínua.
A evolução humana sugere que cérebros grandes só são viáveis com intestinos eficientes e dietas nutritivas. Uma civilização avançada teria de resolver essa conta energética de alguma forma, talvez com ajuda tecnológica ou uma bioquímica muito diferente da nossa.
A segunda forma é o reptiliano. Se for de sangue frio, como um lagarto, seu gasto energético seria muito menor. Ele dependeria do calor do ambiente. Mas se for um predador ativo e inteligente, a conta muda drasticamente. A fisiologia importa mais que a aparência.
A terceira é o humanoide alto, parecido conosco. Com 100 quilos, ele precisaria de 2.300 calorias em repouso. Em atividade, essa demanda poderia quase dobrar. Esse é o cenário mais fácil de imaginar, mas também o mais enganador, pois parece familiar.
Máquinas e bioquímicas alternativas
Há uma quarta possibilidade: o visitante não é biológico. Poderia ser uma inteligência artificial ou um híbrido de carne e máquina. Para ele, "comida" não teria o mesmo significado. Ele precisaria de eletricidade, combustível ou energia nuclear, não de um prato de comida.
Essa é, na verdade, a forma mais plausível para um viajante interestelar. As distâncias são tão vastas que apenas máquinas suportariam viagens de milênios. Um explorador sintético, que pode se desligar por séculos, é um candidato muito mais viável.
Se a vida alienígena for orgânica, sua bioquímica pode ser radicalmente diferente. Talvez use silício no lugar do carbono, ou amônia líquida como solvente. Os ingredientes brutos da vida, como aminoácidos, são comuns no cosmos. O que muda é a "receita" para montá-los.
O risco do bufê terrestre
Para um visitante orgânico, a Terra seria um bufê de risco. Aqui há água, sais, açúcares e proteínas. Mas também há toxinas, patógenos e moléculas incompatíveis. Nosso alimento poderia ser inútil ou até venenoso para um metabolismo que evoluiu em outro mundo.
As bactérias terrestres, por exemplo, poderiam ser devastadoras para ele. Ou, no extremo oposto, simplesmente o ignorariam. Comer aqui seria um jogo de azar bioquímico a cada garfada. A famosa cena do disco voador levando uma vaca poderia ser apenas coleta de amostras.
O verdadeiro tesouro terrestre para um visitante talvez não seja a comida, mas a matéria-prima. Água líquida é um recurso escasso no espaço e abundante aqui. Oceanos mornos valeriam mais que qualquer rebanho. A vaca seria só uma amostra de passagem nessa coleta.
A lição sobre comer
No fim, esse exercício fala mais sobre nós. Alimentar-se é resolver um problema de troca de energia com o ambiente. Todo ser vivo, do coala ao astronauta, é uma solução particular para essa equação. A vida é química resolvendo o problema de continuar existindo.
Se um dia houver contato, não bastarão diplomatas ou tradutores. Serão necessários especialistas para decifrar o metabolismo alienígena. Descobrir o que os envenena, que recursos podem usar e como isso afetaria nosso ecossistema. Seriam os nutricionistas do primeiro contato.
Aqui na Terra, comer raramente é só uma questão de energia. É um ato social, um momento de partilha. Transformamos a necessidade bruta de sobreviver em um gesto de convívio. Essa parte do cardápio nenhum cálculo de calorias consegue capturar. É nossa lição mais humana.
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