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O Agente Secreto é “do” Recife, não “de” Recife

Você já reparou como algumas cidades carregam um “o” ou um “a” na frente do nome, como se fosse parte da identidade delas? O Rio de Janeiro, a Bahia, o Amazonas. No Recife, essa questão vira uma conversa cheia de história e afeto. Muita gente nem imagina, mas usar ou não o artigo antes do nome da capital pernambucana pode revelar de onde você vem ou há quanto tempo vive por lá.

A discussão é antiga e ressurge com leveza, sem aquele peso das brigas políticas atuais. É uma daquelas curiosidades locais que dividem até os próprios moradores. Enquanto alguns defendem a tradição com unhas e dentes, outros adotam a forma mais simples no dia a dia. Ninguém leva a mal, mas o assunto sempre rende um sorriso e um debate amigável.

Recentemente, o filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, trouxe o tema de volta à tona. Os personagens que vêm de fora dizem “em Recife”, mas a narrativa e a maioria dos diálogos usam “o Recife”. Essa escolha não foi por acaso. Ela reflete um cuidado com a linguagem que era praticamente uma regra não escrita nas gerações passadas. Quem chegou à cidade décadas atrás logo era corrigido ao cometer o “deslize”.

A tradição e a lição de Gilberto Freyre

Para entender a preferência pelo artigo, precisamos voltar à origem do nome. Recife vem da palavra “arrecife”, aquele conjunto de pedras que forma uma barreira no mar. Como “arrecife” é masculino, a cidade herdaria o gênero. Seguindo essa lógica, dizer “vou a Recife” soaria tão estranho quanto dizer “vou a Rio” ou “moro em Bahia”. A forma consagrada pela tradição seria sempre “vou ao Recife” ou “moro no Recife”.

O sociólogo Gilberto Freyre era um dos maiores defensores dessa norma. Conta-se que, há cerca de 45 anos, ele chegou a advertir um jovem jornalista pelo erro. Freyre levava o assunto tão a sério que escreveu um artigo intitulado “O Recife, sim! Recife, não!”. Para ele, era uma questão de respeito às raízes geográficas e linguísticas da cidade. Essa visão foi absorvida por boa parte da cultura erudita local.

Na literatura e na música, o artigo sempre teve presença marcante. De Manuel Bandeira a Chico Science, a forma “no Recife” ecoa naturalmente em versos e canções. Ela representa mais do que uma regra gramatical. Ela carrega um sentido de pertencimento, uma forma de nomear a cidade com a cadência e o afeto de quem a sente como sua. É a linguagem da poesia e da identidade cultural.

O uso moderno e a flexibilidade da língua

Nos dias de hoje, no entanto, o cenário sonoro da cidade mudou. Uma multidão de recifenses, inclusive os mais jovens, fala “vou em Recife” ou “sou de Recife” no cotidiano. A língua é viva e se transforma com seus falantes. Para esses moradores, a forma sem o artigo soa mais prática e direta. Ninguém deixa de se entender por causa disso, e a vida segue normalmente.

Até os especialistas em gramática reconhecem essa flexibilidade. O consagrado gramático Napoleão Mendes de Almeida considerava o uso do artigo antes de nomes de lugares como algo facultativo. Ou seja, ambas as formas podem ser consideradas corretas, dependendo do contexto e do hábito de quem fala. O que era uma “lei” para os mais tradicionais virou uma escolha para as novas gerações.

No fim, a polêmica gentil sobre “o Recife” versus “Recife” mostra como a língua respira. Ela equilibra a força da tradição com a naturalidade do presente. Se você está visitando a cidade, ouvir as duas formas é parte da experiência. Cada uma conta uma pequena história: uma fala das raízes profundas, a outra do ritmo dinâmico das ruas. E ambas são, definitivamente, pernambucanas.

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