Imagine trabalhar no maior clube de futebol do mundo, convidada pelo presidente, e em vez de recepção, encontrar portas fechadas e resistência. Foi isso que viveu a nutricionista esportiva Itziar González durante sua passagem pelo Real Madrid. A especialista, com formação em fisioterapia e nutrição, relatou uma experiência marcada por isolamento e desgaste. O caso, que já virou ação judicial, revela tensões dentro dos bastidores do gigante espanhol.
Tudo começou com um convite direto de Florentino Pérez, presidente do clube, ainda em 2021. Itziar havia atendido jogadores como Dani Carvajal e Rodrygo, que sofriam com lesões recorrentes. Apesar do pedido, ela recusou a proposta inicialmente. Já tinha tido experiências desgastantes em outros clubes e preferiu manter distância.
A insistência, no entanto, veio com uma justificativa poderosa: era um desejo pessoal do presidente. Ela aceitou, mas apenas dois atletas aderiram ao seu trabalho naquele momento. Outros jogadores mostraram interesse, mas foram desencorajados pela própria equipe médica do clube. Esse foi o primeiro sinal de que a jornada seria complicada.
O retorno aconteceu em 2023, e novamente em outubro de 2024, após uma nova lesão de Carvajal. Desta vez, ela aceitou um modelo híbrido de trabalho, parte em Valdebebas e parte remoto. Recebeu garantias de que teria respaldo institucional para atuar. A promessa era de que Pérez garantiria o espaço e o respeito necessários para seu método.
A realidade, porém, foi bem diferente. Desde o primeiro dia, a recepção do departamento médico foi hostil. Itziar ouviu que estava ali por “capricho” do presidente. Membros da equipe afirmaram que sabiam como manipulá-lo e que a fariam passar por louca para conseguir sua demissão. O clima tornou-se pesado imediatamente.
Ela não foi apresentada formalmente à equipe e seus pedidos de reunião foram ignorados. Pior: começou a receber ordens contraditórias. De um lado, era instruída a se esconder e não fazer nada. De outro, o próprio presidente a incentivava a implementar seu método, cuidar do buffet e criar dietas personalizadas. A confusão era constante.
No dia a dia, suas recomendações eram sistematicamente boicotadas. No buffet, serviam alimentos que ela havia desaconselhado. O cozinheiro ignorava suas orientações. Os suplementos fornecidos aos jogadores não eram os que ela especificava. Médicos do clube chegavam a dizer aos atletas para não seguirem suas diretrizes. O ambiente era de sabotagem.
Havia até zombarias em grupos de WhatsApp, onde ridicularizavam seu trabalho. Os jogadores eram incentivados a fazer o oposto do que ela recomendava. Mesmo em um ambiente tão tóxico, alguns atletas sentiram os benefícios do acompanhamento. Relataram fim de dores crônicas, desaparecimento de cãibras e maior resistência em campo.
Essas melhorias físicas, atribuídas pelos jogadores ao trabalho nutricional, parecem ter piorado a situação. Itziar afirma que a animosidade interna se tornou insuportável. Treze dias após assinar seu contrato definitivo em 2024, ela mesma pediu a rescisão. O sucesso do seu método, ironicamente, intensificou a pressão contra ela.
A direção pediu que ela ficasse, mas o clima só piorou. A nutricionista passou a sofrer com acusações falsas e um isolamento progressivo. O impacto na sua saúde mental foi grave. Ela relata crises de ansiedade, medo, insônia e choro constante. Pediu ajuda à diretoria, que apenas a incentivou a “aguentar firme”.
Posteriormente, foi impedida de acessar o centro de treinamento e de viajar com o time. A justificativa dada foi “segurança física”. Falaram sobre uma investigação interna e a aconselharam a não se preocupar. O desfecho veio por telefone. Elogiaram formalmente seu “trabalho excepcional”, mas informaram que o Serviço de Nutrição seria cancelado.
Ela pediu apenas que o presidente e os jogadores soubessem a verdade sobre o ocorrido. A resposta foi educada, mas negativa. Disseram que isso não seria possível. O desligamento foi concluído sem nenhuma retratação pública ou explicação aos atletas. O capítulo estava fechado para o clube, mas não para ela.
Decidida a contar sua história, Itziar moveu uma ação judicial. Ela sabe do poder e da influência do Real Madrid. Recebeu advertências sobre possíveis retaliações e campanhas para desacreditá-la. Ainda assim, escolheu falar. Afirma que ainda tem pesadelos com a experiência e que só superará o trauma quando a verdade for conhecida.
Seu objetivo com o processo não é necessariamente vencer. É garantir que os fatos saiam da sombra dos bastidores. É um relato sobre a complexidade de inserir novas metodologias em estruturas tradicionais e fechadas. Mostra como conflitos internos podem minar o trabalho de profissionais, mesmo em instituições de elite. A história segue em aberto, aguardando os próximos capítulos.
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