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“Novas promessas para 2026” – Por Paulo Rogério

Quem nunca fez uma lista de promessas no fim do ano? A gente escreve com esperança, cheio de planos, mas a correria do dia a dia vai empurrando esses objetivos para o fundo da gaveta. De repente, já é dezembro outra vez, e aquelas metas parecem distantes. É um ciclo comum, quase natural. Revisitar esses desejos é um exercício de autoconhecimento. Pode ser algo simples, como retomar um hobby antigo. O importante é não deixar que o tempo apague completamente a vontade de mudar. Separar um momento para pensar no que realmente importa já é um bom começo.

Meu desejo para o próximo ano é reconectar com o prazer da leitura no papel. Sim, sei que dá para ler no celular. Já tentei, mas a experiência nunca é a mesma. Um livro físico não precisa de bateria, não notifica mensagens a cada minuto. A concentração flui de outro jeito. Há um ritual gostoso em virar as páginas, em sentir o peso do livro na mão. É uma pausa genuína do mundo digital. Além disso, evita aquela reclamação clássica de quem está por perto: “larga esse celular!”. Quando você está com um livro, ninguém questiona seu tempo. É um passe de magia que transforma o momento em algo respeitado, quase sagrado.

Outra promessa é buscar menos discurso e mais ação prática, especialmente em relação ao mundo ao nosso redor. É fácil falar sobre solidariedade ou meio ambiente. Difícil é transformar isso em gestos concretos no cotidiano. O mundo realmente pede socorro, e ele ecoa nos detalhes da cidade. Basta um passeio pelo centro para sentir a contradição. De um lado, o luxo de estabelecimentos; do outro, a realidade nua e crua nas calçadas. O cheiro forte de urina e lixo misturado no ar. Pessoas usando papelão como abrigo, dormindo em degraus de viadutos. É uma cena que corta a alma. A indiferença parece ser a resposta mais comum, mas ela não resolve nada.

Um evento recente mostrou isso de forma cristalina. O trânsito estava caótico, e flanelinhas não oficiais cobravam preços abusivos para estacionar em lugares proibidos. A confusão era geral. Optei por estacionar longe e caminhar. A curta distância virou um retrato social. Enquanto alguns se divertiam num local fechado, do lado de fora a vida seguia dura e exposta. Um cachorro de rua bocejava, cansado daquele movimento. A miséria humana estava ali, escancarada, dividindo o espaço com o concreto. Essa divisão não é apenas física, é um abismo que a gente escolhe ignorar todos os dias.

Por isso, a meta vai além do consumo consciente ou do desapego material. É sobre estar presente no mundo real, com os olhos abertos. Menos filosofar sobre problemas e mais oferecer ajuda direta, por menor que seja. Pode ser um olhar, uma palavra, um gesto simples que reconheça a humanidade do outro. O centro da cidade, com seus contrastes, é um lembrete constante. O luxo e a precariedade coexistem, separados por uma fina linha de vidro ou concreto. Ignorar isso é se tornar cúmplice do abandono.

Que o próximo ano nos encontre mais atentos e menos distraídos. Menos presos às telas e mais conectados com o que acontece ao nosso lado. A lista de metas pode até ser a mesma de outros anos. O diferencial estará na ação, no movimento concreto de transformar a intenção em gesto. O cheiro do centro, a cena do viaduto, o desconforto da caminhada: tudo isso são sinais. Eles mostram uma cidade pedindo não apenas socorro, mas principalmente atenção. Que 2026 seja o ano de escutar esse chamado e, de fato, fazer algo a respeito.

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