O Peru tem um novo presidente, mas a sensação é de um filme repetido. José Balcázar, de 83 anos, assume o cargo de forma interina após mais um impeachment no Congresso. Ele promete guiar o país até as eleições de abril, mas seu histórico gera desconfiança e reflete a instabilidade política crônica que cerca o palácio de governo.
A tarefa à frente é imensa e complexa. Balcázar precisa garantir um processo eleitoral transparente em poucas semanas, negociar com um Congresso fragmentado e poderoso, e lidar com a sombra do ex-presidente Pedro Castillo. Seu mandato deve durar apenas até julho, mas em um ambiente tão volátil, cada dia é uma incógnita.
A rápida queda de seu antecessor, José Jerí, mostra como o cargo está vulnerável. O Parlamento peruano tem usado com frequência a acusação de "incapacidade moral" para remover presidentes. É um conceito vago, que depende mais de acordos políticos nos corredores do que de crimes comprovados. Isso transformou a Presidência em um posto de curta duração.
Um presidente polêmico chega ao poder
José Balcázar não era um nome consensual. Ele foi eleito pelo Congresso em uma votação apertada, com 60 votos contra 46 da candidata de centro-direita. Aos 83 anos, o professor e advogado traz uma bagagem política repleta de controvérsias. Ele é filiado ao Peru Livre, mesmo partido de Pedro Castillo, e seu passado judicial também é alvo de questionamentos.
Uma das posições mais criticadas de Balcázar foi sua defesa do casamento infantil. Em 2023, durante um debate, ele questionou por que proibir a prática se "desde os 14 anos, as meninas já estão grávidas". Ele tentou se justificar depois, mas a fala causou repúdio. Além disso, sua carreira como juiz é investigada por um suposto desvio de recursos.
Essas polêmicas pintam um retrato complicado para um líder que promete pacificar o país. Em seu discurso de posse, ele garantiu prioridade ao combate à insegurança e à realização de eleições limpas. No entanto, sua autoridade moral para unir uma nação dividida é posta à prova antes mesmo de seu governo começar.
Os desafios imediatos e a sombra do passado
O principal compromisso de Balcázar é conduzir uma transição ordenada até as eleições de 12 de abril. Ele jurou não dar "saltos no vazio" e manter a estabilidade econômica. Porém, seu partido tem apenas 11 dos 130 assentos no Congresso. Para governar, precisará fazer alianças frágeis e negociar cada medida.
Uma grande dúvida paira sobre o que fará em relação a Pedro Castillo. Líderes do Peru Livre pressionam por um indulto ao ex-presidente, preso por tentar um autogolpe. Balcázar já afirmou que nenhum perdão está na pauta, mas a pressão partidária pode crescer. Outra incógnita é a influência real do líder do partido, Vladimir Cerrón, nas decisões do governo.
A oposição, liderada por Keiko Fujimori, já declarou que a posse de Balcázar é "um dia muito triste para o país". Ela acusa a esquerda radical de levar o Peru ao caos. Esse clima de confronto dificulta qualquer tentativa de diálogo. O novo presidente herda um país onde a política virou uma guerra de interesses sem trégua.
A instabilidade como regra no Peru
A posse de Balcázar é mais um capítulo na sucessão presidencial vertiginosa que o Peru vive. Desde 2016, o país já teve nove presidentes. Quatro foram destituídos, dois renunciaram antes do impeachment e apenas um conseguiu terminar o mandato. A Constituição, que permite a vacância por "incapacidade moral", virou uma ferramenta política.
Esse mecanismo vago enfraquece o Executivo e fortalece um Congresso que age como juiz e parte. A fragmentação partidária piora tudo. Pequenos grupos negociam apoio em troca de cargos, usando a ameaça de impeachment como moeda de troca. O resultado é uma paralisia que impede projetos de longo prazo.
A rotatividade no poder gera insegurança jurídica e desgasta a confiança da população. Enquanto os partidos travam suas batalhas internas, problemas urgentes como a economia e a violência ficam em segundo plano. O ciclo parece não ter fim, e cada novo presidente assume sob a espada de Dâmocles do Congresso.
Um futuro incerto à vista
Os próximos meses serão de teste para a frágil democracia peruana. Balcázar tem a missão quase impossível de ser um presidente de transição em um país sem trégua. Sua capacidade de organizar as eleições e passar o cargo em julho será seu único legado possível. Qualquer passo em falso pode abreviar ainda mais sua passagem.
A esperança é que o processo eleitoral de abril traga um mandato com mais legitimidade e solidez. Mas o sistema político, como está, parece condenado à repetição do mesmo roteiro. A menos que haja uma reforma profunda nas regras do jogo, a instabilidade seguirá como a marca principal da política peruana.
Por enquanto, os peruanos assistem a mais um ato dessa crise interminável. A posse de um novo presidente, em vez de acalmar os ânimos, parece apenas um intervalo breve até a próxima turbulência. O país precisa de paz, mas a política segue em guerra consigo mesma.
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