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Nigéria, Natal e a necropolítica Trumpista

A ação militar americana no noroeste da Nigéria, anunciada durante o Natal, vai muito além de uma resposta antiterrorismo. Ela representa um gesto carregado de significado, uma mensagem cuidadosamente elaborada para diferentes plateias. O episódio é, na verdade, um manifesto ideológico que fala ao mesmo tempo com eleitores, com o establishment de segurança e com nações do Sul Global.

A escolha da Nigéria como palco não é casual. Estamos falando do país mais populoso da África, uma potência regional com enorme peso econômico e estratégico. Sua localização no Golfo da Guiné e seus recursos naturais o tornam uma peça fundamental no tabuleiro global. É também um território onde a influência de outras potências, como China e Rússia, tem crescido de forma significativa nos últimos anos.

Na comunicação oficial americana, porém, essa complexidade toda desaparece. A região é apresentada como um lugar vazio, sem governo ou história própria. Não há menção às autoridades nigerianas ou a fóruns internacionais. A África, mais uma vez, parece servir apenas como cenário para decisões tomadas em outros lugares, longe de qualquer escrutínio ou debate público mais amplo.

A narrativa construída em torno do ataque é reveladora. O conflito não é apresentado como uma insurgência complexa ou uma disputa por recursos. Ele é enquadrado de maneira simplista como um confronto religioso, uma guerra de cristãos contra muçulmanos. Essa linguagem evoca imagens históricas poderosas, como as Cruzadas, e busca justificar a ação militar como uma missão de proteção.

O vocabulário utilizado é direto e belicoso, falando em “ataques perfeitos” e “terroristas mortos”. Não se fala em mediação, diplomacia ou no papel de organizações internacionais. A mensagem tácita é de que a ação unilateral é legítima por si só. A violência se transforma em um espetáculo narrativo, onde a simbologia do Natal é apropriada para dar um tom de punição divina à operação.

O alvo real da mensagem, no entanto, pode não ser o grupo terrorista visado. O subtexto geopolítico parece dirigido a outros atores globais. É um recado claro de que os Estados Unidos estão dispostos a agir por conta própria, sem pedir autorização ou se prender a uma ordem internacional multipolar. É uma afirmação de poder em um mundo cada vez mais disputado.

Esse movimento se conecta a uma reorientação estratégica mais profunda dentro do aparato de defesa americano. Figuras influentes no departamento defendem uma competição aberta com outras grandes potências, notadamente a China. Nesse novo desenho, regiões como a África deixam de ser vistas como periferias distantes.

Elas se tornam fronteiras estratégicas indiretas dessa grande disputa. A presença e os investimentos de outros países tornam cada espaço uma área de interesse vital. A ação na Nigéria, portanto, pode ser lida como um sinal para esses competidores, indicando que os EUA não abrirão mão de sua capacidade de intervir onde e quando julgarem necessário.

Talvez o ponto mais preocupante de tudo isso seja a naturalização silenciosa desse processo. A guerra vai se tornando uma rotina administrativa, anunciada por um simples post nas redes sociais, sem um debate congressual robusto ou uma cobertura jornalística que explore todas as suas nuances. A violência estatal além das fronteiras passa a operar em um modo quase automático.

Ela é sustentada por narrativas morais simplificadas, que identificam um “inimigo do dia” – sejam terroristas, narcotraficantes ou quaisquer outros grupos. Essa lógica pode ser aplicada a diferentes cenários, conforme a conveniência. Dessa forma, a política externa se torna um instrumento flexível, onde o que importa é a demonstração de força e o envio de uma mensagem clara de soberania indiscutível.

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