O centro de Buenos Aires fervilhava muito antes do horário oficial. Famílias inteiras, grupos de amigos e militantes formavam colunas intermináveis. Bandos de adolescentes com tambores se misturavam a aposentados com bandeiras desbotadas pelo tempo. Era um rio de gente que convergia para um mesmo ponto, movido por uma memória que não se apaga.
A data era 24 de março, um marco sombrio na história argentina. Há cinquenta anos, um golpe militar dava início a uma ditadura genocida. Trinta mil pessoas foram sequestradas, torturadas e assassinadas pelo próprio Estado. Esse número, "30 mil", ecoava em todos os cantos da praça, não como uma estatística, mas como um grito coletivo.
Era possível ver a história viva naquele encontro. Avós em cadeiras de rodas seguravam fotos desbotadas de filhos jovens. Netos que nunca conheceram seus tios carregavam cartazes com os mesmos rostos. A linha entre passado e presente simplesmente desaparecia. A marcha era, acima de tudo, uma promessa coletiva: a de não deixar que o mesmo horror se repita.
Um abraço coletivo contra o esquecimento
Poucos eventos na Argentina conseguem unir gerações tão distintas. Nas colunas, estudantes secundaristas cantavam palavras de ordem ao lado de sindicalistas veteranos. Torcidas organizadas de futebol marchavam lado a lado com coletivos culturais de bairro. O lema era claro: "Memória completa". Era uma resposta direta às tentativas recentes de reescrever a história.
O governo atual, de Javier Milei, havia publicado um vídeo horas antes, reabilitando a narrativa dos militares. Nas ruas, a resposta foi contundente. Cartazes irônicos e críticos pontilhavam a multidão. Um boneco gigante com o rosto do presidente era carregado pelos estudantes, simbolizando a rejeição a suas políticas. O ato era, também, um alerta sobre os perigos do presente.
Denúncias contra as medidas de ajuste econômico e a repressão aos protestos se misturavam às lembranças do passado. O documento lido no palco alertava para um modelo que só se sustenta com autoritarismo. A conexão era clara: desrespeitar a memória abre caminho para repetir os erros. A luta por "Memória, Verdade e Justiça" se mostrou inseparável da defesa de "pão, saúde e trabalho" hoje.
O legado que segue vivo nas ruas
Com o passar implacável dos anos, restam cada vez menos Mães e Avós da Praça de Maio. Ainda assim, elas estavam lá, na linha de frente. A maioria em cadeiras de rodas, lideravam a marcha com as fotos de seus filhos como estandartes. Atrás delas, uma imensa bandeira com centenas de rostos de desaparecidos flutuava, sustentada por mãos anônimas. A cena era de uma emoção esmagadora.
Aquela imagem resumia meio século de resistência. Mulheres que, nos anos mais sombrios, desafiaram a ditadura sozinhas na mesma praça, agora eram abraçadas por uma multidão incontável. Seus filhos e filhas, militantes que sonharam com um país mais justo, tinham suas bandeiras levantadas por uma nova geração. A tarefa, como diziam, ainda está inconclusa.
Ao final do ato, a voz no alto-falante pediu que todos levantassem as fotos dos desaparecidos. "Neste momento, eles olham para a Casa de Governo", ecoou. A multidão, então, gritou em uníssono, num coro que pareceu abalar os edifícios ao redor: "Trinta mil detidos-desaparecidos, presentes!". A memória, como escreveram depois alguns jovens em um muro, arderá até que tudo seja como um dia sonharam.
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